
Crônicas
Urda Alice Klueger
O País Das Crianças Roubadas
Ela é ainda fraquinha, mas já chegou aqui, a primeira massa de ar polar do ano. Parece-me vê-la vindo, como novelos de ar gelado rolando por dentro do calor intenso, assustando-o e pondo-o em fuga. Faz poucas horas que começou a chegar, mas já passei do biquíni para a camisola de mangas. E essa massa de ar polar passou pela Argentina para chegar aqui.
Eu gosto muito da Argentina e da sua gente, e saber que esse ar frio passou por lá antes de chegar aqui costuma me fazer bem, é como que algo perfumado, acariciante, como um filtro de cristal que, ao tornar o ar tão fino e brilhante, nos permite sentir e ver a amplidão fascinante dos grandes espaços argentinos.
Só que hoje estou a viver um momento diferente em relação às coisas da Argentina, e pensar que essa massa de ar polar passou por lá me dá um nó na garganta, me faz querer chorar. Há dois dias atrás o país nosso vizinho rememorou 30 anos do golpe militar de 1976 – e os 30.000 desaparecidos, e os incontáveis torturados ... e as crianças roubadas!
Um poeta da minha terra[1] um dia escreveu belíssimo poema que fala da geração das crianças traídas. A Argentina viveu a geração das crianças roubadas. E roubadas pelas autoridades, da forma mais vil que uma mente doentia possa imaginar.
Na época em que as 30.000 pessoas começaram a desaparecer, as mães delas, muitas delas, indiferentes ao perigo que enfrentavam, passaram a reunir-se na Praça de Maio, onde um dia estive, em Buenos Aires, a exigirem a volta ou notícias dos seus filhos. Sua força de mães era tão grande que não houve barbárie militar que as contivessem, e 30 anos depois elas ainda estão lá na Praça de Maio, a pedir justiça. Agora, porém, além de serem as Mães da Praça de Maio, passaram também a serem as Avós da Praça de Maio. Em 30 anos seus rostos envelheceram, mas não sua garra e sua tenacidade. Continuam usando os lenços brancos à cabeça, como um uniforme que as tornou conhecidas no mundo, e agora procuram pelos netos roubados.
Deve fazer mais de dez anos que comecei a ouvir falar nelas, as crianças que nasceram nos cárceres, nos centros de tortura, e que sumiram misteriosamente. Lembro de ter lido um livro que era a transcrição de um processo contra os generais ditadores, onde se apresentavam muitas provas, e de ter ficado horrorizada com a descrição de um parto acontecido num carro de torturadores. O carro rodava e a moça embarazada[2], com as mãos amarradas às costas e os olhos vendados, sentada no banco traseiro, continuava a ser torturada em pleno trabalho de parto. Os verdugos riram muito dela quando a criança caiu no chão; assim como caiu, no chão ficou, embora a mãe implorasse, em desespero, que acudissem a seu filho. Crianças que nasciam de tais formas sumiam; quase sempre sumiam também as mães e os pais. Sabe-se hoje que esses bebês nascidos nos centros de horror eram dados, geralmente, para famílias de militares criarem como se fossem seus filhos; as mães e os pais sumiram de muitas formas misteriosas, principalmente mortos sob tortura e tendo os corpos jogados de avião no alto mar. Até um Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Esquivel, esteve num avião desses, drogado e amarrado, para ser lançado vivo ao mar. Os generais argentinos, Hitler e Bush são vinho da mesma safra.
As crianças argentinas roubadas hoje são moços, são moças, e a maioria ainda não sabe a sua própria história. Alguns desconfiam da própria identidade, mas será que todos poderão crer que provenieram de dentro de tamanhas atrocidades? Como aceitarão, quando souberem, a realidade de que suas mães foram mantidas vivas até seu nascimento, porque o coronel tal ou o sargento tal queria uma criancinha para criar? Como aceitarão que suas mães foram mortas depois de tê-los dado à luz, num horror que nem Hitler imaginou?
Elas estão na mídia esta semana, as crianças roubadas. As Avós da Praça de Maio envelheceram só na aparência, e ainda usam o lenço branco na cabeça, como o Uniforme da Coragem. O tempo passou, mas elas não esmorecem. Cerca de 500 crianças foram roubadas – até agora já acharam mais de 100. Acharão as outras, decerto. Vi alguns daqueles jovens na Internet e no noticiário da televisão, e a revolta dentro deles era inexorável como uma tsunami. Como poderão perdoar, um dia? Na minha condição de humana, eu não consigo entender como alguém possa perdoar uma coisa assim.
Então, hoje quando chegou essa primeira massa de ar polar do ano, eu sabia que ela tinha passado pela Argentina e que lá havia muita gente nas ruas e nas praças chorando as lágrimas de sangue da rememoração do horror. Então, hoje,o filtro de cristal que essa massa polar dá ao ar frio não me faz pensar nas grandes e lindas amplidões argentinas – hoje eu penso na revolta das crianças que cresceram e estão descobrindo suas avós na Praça de Maio, e estou aqui chorando. Como podemos continuar indiferentes a que tais horrores continuem acontecendo no mundo?
Blumenau, 26 de Março de 2006-03-27
Urda Alice Klueger – Escritora.