(Para Didier Dominique e o povo do Haiti)
(e para meu pai,
Roland Klueger, que faria 88 anos hoje.)
Era uma vez um rei e um menino. Fico pensando se há alguma palavra
que signifique, ao mesmo tempo, exaustão, terror, desespero e
desesperança, tudo isto somado e elevado a décima potência, mas não
encontro tal palavra. Só que era bem assim que estava o menino:
tinha dois anos, encolhia-se de olhos catatônicos no vazio de uma
calçada logo depois do terremoto do Haiti, e apareceu na televisão.
Eram tantos em desespero em torno dele, eram tantos... Eram tantos
os mortos em torno dele, eram tantos... Quem conseguiria prestar
atenção em mais aquele menino dentro de tanta desgraça, a não ser
aquele olho malicioso de uma televisão, que pegou o menino e o jogou
no meu colo, sem que eu soubesse o que fazer com ele?
Era uma vez um rei e um menino. O
rei era pura saúde, garbo e fidalguia: vestido com trajes tribais,
tinha no rosto e no corpo os mesmo desenhos em branco, preto e
vermelho que também estavam no escudo de couro que segurava na mão
esquerda, pois na direita segurava a lança segura e certeira que o
tornara rei tamanha a sua perícia ao caçar o leão. Ele era grande e
espadaúdo, mas maior ainda era a sua fama, pois não só ao leão
enfrentava: quando seu povo tinha fome, ele afrontava até os grandes
elefantes, e todos viviam felizes no seu reino, bem alimentados e
saudáveis, e o rei era feliz também.
Certo do poder da sua felicidade
e da sua lança, o rei nunca entendeu como lhe caíra em cima aquela
rede que o despojara do seu escudo, da sua lança, da sua força e da
sua liberdade – como tantos outros da sua terra, teve que se curvar
à chibata do traficante, aceitar a gargantilha e as algemas de
ferro, resistir à longa caminhada da coleante corrente feita de
gente e de ferros, viver a aviltância do navio negreiro.
A saúde antiga deu-lhe forças
para chegar vivo àquela terra de degredo, de escravidão, e cruéis
homens brancos de outra fala, à força de chicote, subjugaram-no e
ele teve que se curvar, sem lança, sem pintura, sem escudo, e
cultivar a cana que produzia o açúcar, o rum e a riqueza daqueles
usurpadores da sua liberdade. Nunca mais ele foi feliz; nunca mais
soube do seu povo e seu povo nunca mais soube dele, e só o que havia
de belo era o mar daquela terra, todo verde, azul e transparente.
Houve, também, uma mulher que reconheceu nele a fidalguia
conspurcada, e antes de morrer prematuramente, o rei teve um filho,
negro e lindo como ele, e que na verdade era um príncipe – mas foi
um príncipe que nunca teve uma lança e que não conheceu os desenhos
e as cores tribais – ao invés de leões, só houve para ele o látego
do algoz.
Outros príncipes foram gerados na
descendência do rei, naquela terra que parecia incrustada num mar de
turmalinas, e todos tiveram a vida miserável de escravo, enquanto
seus senhores tinham as vidas nababescas dos poderosos.
Um dia, já não dava mais de
suportar. Eles eram mais de 500.000 negros, e os senhores eram
32.000, certos que a força do látego manteria aquela situação
indefinidamente. E junto com os demais escravos os descendentes do
rei lutaram e lutaram e venceram – desde 1791 a 1803 – nesse último
ano venceram até o exército que Napoleão Bonaparte mandara da
França. E conquistaram a liberdade!
O Haiti foi o primeiro país da
América dita Latina a ser livre, a fazer a independência, isto lá em
1804, antes de todos os demais. É de se imaginar o frio que correu
na espinha de tantos outros colonizadores brancos: uma república, e
de negros? E se a coisa pega? Olha que escravo está tudo cheio por
esta América de meu Deus! Que se faz, ai ai ai?
De modo geral, o que se podia
fazer eram independências rápidas, feitas por brancos (e elas
aconteceram uma depois da outra) e muita matança de negros, para
evitar que a coisa trágica se repetisse e sujasse o bom nome da dita
civilização européia! Sei bem como foi tal matança no Brasil: foi na
guerra do Paraguai, foi na revolução Farroupilha... – não estou
inteirada de como foi nos outros países, mas que a matança foi
grande, lá isso foi. E a “civilização” branca quase pode respirar,
aliviada – só que havia aquele pequeno país, aquele maldito pequeno
país lá incrustado naquele mar de ametista, o tal do Haiti, que era
um país de negros – e nunca que a tal “civilização” branca poderia
deixar aquilo lá florescer de verdade – era afronta demasiada.
E nos dois últimos séculos o
Haiti sofreu tudo o que é possível sofrer-se para que sua crista se
quebrasse: invasões, ditaduras, golpes de Estado, o bedelho dos
brancos sempre indo lá e tentando botar tudo a perder, mas a
valentia daquele povo parecia indomável, e o Haiti, mesmo não
conseguindo florescer como deveria, era exportador de café, de
arroz, era o maior produtor de açúcar do mundo, era um país que
tinha seus filhos bem alimentados a arroz, a banana, os porcos
abundavam e produziam pratos deliciosos, acompanhados de banana
frita, iguaria tão caribenha...
Foi agora, agorinha, no tempo da
violência do neoliberalismo, o que nos leva a 1980, que o complô dos
brancos resolveu que já não dava mais, que era muito absurdo em
plena América ver um país de negros sobrevivendo e sobrevivendo
impunemente... Então foi programada a tomada definitiva do Haiti.
Foi daquelas coisas mais malévolas que as mentes doentias podem
programar visando lucro: aos poucos, introduziram-se as pragas
necessárias na ilha incrustada num mar de safira, e morreram todos
os porcos, e depois todo o arroz, e depois toda a banana, e depois
veio a praga do café.. . Aqueles negros corajosos não sobreviveriam,
ah! La isso não poderia acontecer! Viveriam apenas para voltar à
condição de escravos, e igualzinho como os europeus, em 1885, no
Tratado de Berlim, dividiram o mapa da África à régua, causando as
milhares de desgraças que estão acontecendo até hoje, os brancos do
neoliberalismo pegaram o território do Haiti e o dividiram em 18
futuras zonas francas onde não haveria lei, onde o Capital
imperaria, e onde, as pessoas tão famintas que estavam assando
biscoitos de argila para poderem ter algo no estômago trabalhariam,
de novo, em regime de escravidão. Pode parecer que tal coisa é
distante de nós, mas não é. O próprio vice-presidente do Brasil,
José Alencar, é alguém tão interessado no assunto que até mandou seu
filho para lá para cuidar dos seus futuros interesses imperialistas.
E o execrável outro dia ainda saiu do hospital, depois de mais
algumas cirurgias, sorrindo para as câmaras das televisões e
declarando que poderia perder tudo na vida, menos a honra. Que honra
pode ter um homem assim?
(Não consigo me furtar de contar
de que forma a nefanda honra do vice-presidente atingiu diretamente
minha família, recentemente. Numa só tarde, uma das empresas dele,
aqui na minha cidade de Blumenau/SC/Brasil, a Coteminas, demitiu
600 empregados, assim sem mais nem menos. Três primos meus,
lutadores pais de famílias, perderam o emprego sem entenderem muito
bem por quê – o porquê é fácil: nas novas fábricas que o “honrado”
vice-presidente anda montando lá nas zonas francas do Haiti, os
novos empregados trabalharão pela décima parte do salário que os
meus primos ganhavam – e o salário dos meus primos já não era grande
coisa.)
Bem, então tínhamos um Haiti em
petição de miséria, e daí veio o terremoto. Que poderia ter
acontecido de melhor para o Capitalismo e o Imperialismo dos EUA?
Até o palácio presidencial do governo títere ruiu – daqui para a
frente é apenas tomar posse – já não há barreiras. Ao invés de ajuda
humanitária (que eles não deram nem aos flagelados do furacão
Katrina, em seu próprio território) os Estados Unidos estão,
descaradamente, diante de todo o mundo, fazendo a ocupação militar
do Haiti com o seu exército, e tudo parece bonitinho, com a Hilary
indo lá para ver como é que estão ajudando... ajudando uma ova!
Alguém já viu os Estados Unidos ajudar alguém de verdade?
Não deixo de louvar as tantas e
tantas equipes de tantos e tantos países que lá estão, realmente
levando ajuda humanitária para aquele povo quase que nas vascas da
agonia – mas a semvergonhice do Capital está lá, também, sorrindo de
felicidade com sua cara de caveira.
E então o olho de uma televisão
espia lá aquele menino de dois anos arrasado pela exaustão, pelo
terror e pelo desespero, encolhido num vazio de uma calçada, e o
joga brutalmente no meu colo – e quando tento acalmá-lo acolhendo-o
junto do meu coração, ele me conta do rei, seu antepassado – aquele
menino moído pelo Capital e pelo terremoto é nada mais nada menos
que um príncipe, e seu antepassado que foi rei e livre caçava leões
e elefantes e alimentava um povo – o menino sabia, a família sempre
contara adiante o seu segredo.
Céus, céus, o que fizeram com as
gentes livres da África, que quiseram apenas continuar vivendo com
dignidade naquela ilha de onde já não podiam sair? Quem vai cuidar
daquele menino antes que ele retorne à condição de escravo de onde
seus antepassados tanto tentaram sair?
Eu choro, Haiti, choro por ti, e
por teu menino, e por aquele rei. Não sei fazer outra coisa além de
chorar.
Blumenau, 17 de
janeiro de 2010.
Urda Alice Klueger
Escritora e
historiadora