Talvez tenha sido Pedro
Missioneiro o primeiro grande herói da minha primeira adolescência,
e talvez tenha sido com ele que tenha aprendido a primeira palavra
em espanhol, quando ele, fatalisticamente, explica a Ana Terra que
não há por que fugir, pois ele já viu a sua morte num sonho, “sob um
arból”...
E os seios de Ana Terra, que
tremiam como se fossem feitos de coalhada, e o susto dela quando
viu, pela primeira vez, espelhada na água da sanga a imagem daquele
Pedro Missioneiro que geraria toda uma longa linhagem de heróis para
a minha quase infância – e que acabariam sendo meus heróis, dentre
outros, para toda a vida...
Não cabe, aqui, lembrar tudo,
embora as lembranças me venham em turbilhões, como revoadas de
pássaros a me envolverem, e nem sei como cabe dentro de mim tanta
lembrança... Mas dá para sintetizar dizendo que tudo começou quando
encontrei por acaso, dentre 30.000 outros, aquele livro maravilhoso
que seria como que um primeiro leme na minha vida e na minha
imaginação. Aquele livro era como puxar de lado uma cortina e deixar
resplandecer para aquela quase criança as imagens radiosas do futuro
que eu passaria a abraçar a partir daquela descoberta, e desde então
ele foi e é absolutamente forte na minha vida, e penso agora, neste
momento, se algum dia Érico Veríssimo pensou que aconteceria tanta
coisa, como ter seus livros traduzidos para o chinês, ou que nas
terras de Santa Catarina, que nem eram assim tão distantes, uma
menina que ia de bicicleta até a Biblioteca Pública leria algumas
dezenas de vezes aquele livro, e passaria a viver em prol da
imaginação porque houvera ele, como grande Mestre, a lhe dar a
certeza de que tal era possível!
Ah! Érico Veríssimo, meu Mestre
querido, como sofri, uma década mais tarde, quando ouvi, no rádio de
um carro, numa rodovia distante, que tinhas partido e que eu nunca
te conheceria – se bem que então parecia-me impossível conhecer de
verdade alguém tão fantástico assim! Choro amargamente agora,
lembrando daquela noite, daquela notícia no rádio do carro, da
grande perda que estava sofrendo, embora tivessem ficado os livros,
e Pedro Missioneiro com o seu chiripá, e Ana Terra com os seios
trêmulos como coalhada, e o palco da Imaginação todo iluminado e com
as cortinas abertas.
Muito tempo se passou, muito
tempo. Na próxima madrugada estará fazendo duas semanas que, enfim,
como num sonho, eu fui lá. Viajei de ônibus, e amanhecia quando
acordei, e havia ainda uma penumbra difusa sobre tudo, e
transparentes nacos de neblina a fazer com que as coisas parecessem
um pouco irreais, mas não eram. Eu tinha, afinal, chegado aos campos
de Érico Veríssimo.
Aquela emoção que viera com o
livro achado entre outros 30.000 não mudara, e ela veio e me sufocou
de maravilha, porque, enfim, eu fora lá... E transida de emoção,
como neste momento de novo me sinto, fui espiando tudo, e olhando, e
entendendo que era ali, sim, que eram aqueles, sim, os campos de
Érico Veríssimo! Faltava um bom pedaço para chegar à cidade de Cruz
Alta, talvez uns 30 ou 40 quilômetros, e deu para ver muito bem o
clareamento do dia, e as palavras desconhecidas para mim que ele
usava, como sanga, por exemplo, a desfilarem pela beira da estrada
como um rebanho de entes muito queridos que só agora a Geografia me
mostrava, e em pleno fascínio eu espiava, pois tinha certeza que, de
repente, Ana Terra passaria pelo campo com sua trouxa de roupa para
lavar e entraria por dentre um amontoado de árvores, e eu poderia
ver o susto dela ao deparar com um índio desacordado...
É tão pouco o espaço de uma
crônica para contar como realmente foi! Ali naqueles campos, sem que
eu nunca os tivesse visto, começaram a se formar, um dia, as
estruturas da minha vida. Só alguém tão grande quanto Érico
Veríssimo para ter transposto aqueles campos para o distante Vale
onde eu me criei, e tê-lo feito tão bem que bastava olhá-los para os
reconhecer. Foi muita emoção. Nem dá para contar mais hoje.