O trigo
não deu, nos campos de Érico Veríssimo; aquelas terras ali não gostavam
das sementinhas que vinham lá do outro lado do mundo e que davam origem
ao pão branco, tão diferente do dourado pão de milho que os antigos
moradores que haviam aberto aqueles caminhos quase invisíveis por onde
Maneco Terra passava já faziam há alguns milhares de ano naquelas
terras. O trigo não deu e Maneco Terra acabou morrendo, um dia, e sendo
enterrado naquela terra que não gostava do seu sonho de trigais
ondulando ao vento, e seu corpo adubou aqueles campos que depois seriam
de Érico Veríssimo. Maneco Terra não ficaria esquecido, no entanto: sua
carne na terra e seu sêmen nas gentes fizeram com que ele se
perpetuasse, e passaram-se os dias, os anos e os séculos, e naqueles
campos ainda nasce gente como ele, tão parecida com ele que só Érico
Veríssimo, mesmo, para ter conhecido as gentes de muito mais tarde e ter
entendido como tinha sido o seu ancestral, aquele homem que já parecia
que tinha ficado perdido no tempo.
Então,
lá nos campos que já foram de Maneco Terra, há príncipes que vivem hoje
como que dentro de um sonho de um escritor, e no auge do verão trabalham
arduamente fazendo cercas que já não são para o trigo, coisa esquecida.
Hoje as cercas são para o gado, para a soja, e há um príncipe de camisa
de cambraia aberta ao peito que poderia ser conhecido como fazedor de
cercas, mas que como agora existem aqueles rolos de arame quase
brilhantes que já vêm prontinhos da fábrica, é chamado de Alambrador.
Então,
sob o sol inclemente de janeiro, o Alambrador moureja arduamente
puxando, esticando e pregando aquele arame cheio de farpas, queimando-se
ao sol, ferindo as mãos, molhando de suor a ampla camisa de cambraia
aberta ao peito – quando o sol fica ardente em demasia ele arranca tufos
de capim verde e enche com ele a copa ardente do seu chapéu. Como há
séculos, anos e meses atrás, os campos de Érico Veríssimo continuam a
ser trabalhados, e aquele Alambrador Terra/Cambará suspira de satisfação
quando vê que há um alívio vindo a caminho dentro de uma jarra fria,
onde há leite, ovos e açúcar, gemada diluída e esfriada, feita pela
mulher que o ama para lhe recompor o ânimo e as forças que o sol está
roubando.
Ele
pára, empurra para trás o chapéu quente, seca com a manga de cambraia a
testa molhada de suor enquanto se apossa da vasilha gelada e fragrante,
e gole a gole, bebe aquela bebida reanimadora que lhe desce por dentro
do peito exatamente como o bálsamo de que estava precisando para se
reanimar. O coração lhe sinaliza o prazer daquele refrigério entrando
num compasso mais acelerado, e então, chapéu para trás, deixando
escorregar para o chão a vasilha vazia, ele enlaça aquela mulher que lhe
tem tanto amor e a puxa para junto do peito suado, e para ela tudo é
fina fragrância naquele seu suado cheiro de trabalho, e como uma coisa
de doido, os lábios dos dois se encontram, e um desvario que é
completamente inexplicável dança dentro deles, e dentre eles, e ao redor
deles como girândolas de nuvens coloridas, e ambos têm a certeza de que
momentos assim são completamente inesquecíveis, até para muito depois
que a morte os separar.
Não
mudaram muito as coisas nos campos de Érico Veríssimo. Apenas Maneco
Terra se chama, hoje, o Alambrador.
Blumenau, 10 de janeiro
de 2010.
Urda Alice Klueger
Escritora