Os Campos De Érico VeríssimoII
(Para Mara Regina Barbosa de Oliveira e Rossano Viero Cavalari, gente
viva da Cruz Alta
de hoje.)
Então, naqueles dias, eu estava lá! Lera, antes, sobre a gênese daquela
Cruz Alta que vivera dentro do meu peito desde a infância, e lera sobre
o longuíssimo desfile de degolados com sofisticação e maldade da sua
Revolução Federalista, e lera O tempo e o Vento, daquele, que no
meu coração de criança dada a sonhar, fora o primeiro a abrir a porteira
de todas as possibilidades! Não precisou muito tempo de contato com
aquele lugar, aquela gente, para entender que ali era Santa Fé... E QUE
ALI ERA ANTARES! De uma certa forma, o meu coração estava preparado para
descobrir que estava chegando em Santa Fé, quando tomei o ônibus para
Cruz Alta – mas deparar-me, ao mesmo tempo, com Antares, foi uma coisa
magnífica! E Antares me espiou de fora do táxi, e como que me piscou um
olho cúmplice quando, antes das oito horas da manhã, vindo da rodoviária
para o hotel do centro, vislumbrei a vetusta praça de grandes árvores,
linda praça como poucas cidades têm – e lá nela, como que de uma forma
encantada, o coreto de Antares, daquela cidade mágica onde os mortos
reviveram porque os coveiros, em greve, não quiseram enterrá-los, e se
juntaram todos ali naquele coreto, mortos-vivos sem mais nenhuma
obrigação para com os mortos ou para com os vivos, a passar num pente
fino a população local e a todas as justiças e injustiças que por ali
aconteciam! Eu mal podia crer que chegara, também, a Antares, a mágica
cidade do Incidente! Foi de vislumbre, de passagem rápida que vi o
coreto e entendi tudo, e meu coração deu o maior pulo, porque sempre
admirei muito aquela forma que Érico Veríssimo arranjou de fazer crítica
política e social em plena ditadura, de botar tudo o que pensava e
achava na boca dos mortos de Antares! A lembrança me trouxe o dia em que
comecei a ler aquele livro, num ônibus entre Florianópolis e Blumenau,
acabado de ganhar de presente do meu então editor, seu Odilon Lunardelli,
que também já partiu faz tanto tempo!
Chegara cansada naquela cidade que
era Cruz Alta, que era Santa Fé e que era Antares, e fazia um grande
frio – era mister descansar um pouco, e não me fiz de rogada quando vi a
cama com sua grossa pilha de cobertores de quente lã. Penso que só me
acordei umas duas ou três horas depois, e então saí do hotel para
conquistar Cruz Alta, para entender um pouco mais ainda os campos de
Érico Veríssimo!
A História, ali, era tão forte quanto
o frio – mas para mim, que passara décadas imaginando como seria, o
mundo da imaginação era ainda mais forte que a História e o frio, e tão
agasalhada quanto podia, saí farejando aquele mundo encantado como
quando a gente fareja cores e arco-íris! Do hotel se saía para um
calçadão, e não foram necessários muitos passos para de novo eu estar...
frente a frente com o coreto de Antares!
Havia diversos pontos naquela cidade
que me atraíam e que ainda viriam a me atrair, e havia pessoas que eu
queria conhecer, e havia a vastidão dos campos mais longe, ao redor, e a
lembrança dos tratados de 1750 e 1777 (neste momento me pergunto: qual
foi o do uti possidetis? Minhas professoras primárias me
ensinaram tão bem – onde foi que esqueci a informação correta?), e tanta
coisa, tanta coisa para ver, saber, viver e aprender ali, e os dias eram
tão poucos – e eu ia e vinha, e descobria sempre mais coisas sobre
aquela cidade que tanto já conhecia através dos livros – e não vou dizer
que aquela era a coisa mais forte ali – mas como era forte!
Naquele tão pouco tempo, inúmeras
vezes eu andei por ali, encurtando o passo, me demorando, espiando,
fotografando – penso que espiava aquele coreto como quando, na
adolescência, compramos uma revista pornográfica e a escondemos dentro
do casaco para que ninguém a veja, mas tendo a sensação de que todos
estão a nos olhar por causa daquilo – o fascínio que aquele coreto
exercia sobre mim era uma coisa espantosa! Mirei-o, remirei-o e
fotografei-o de tantos ângulos e tantas vezes, que decerto não deixei
escapar de ver e sentir nada – mas em nenhum momento tive coragem de
nele subir. Na minha imaginação, os mortos que ali tinham “vivido” seu
protesto que exigia o direito de serem enterrados, e que ali, aos
poucos, foram se decompondo e ficando com os olhos cheios de moscas,
decerto que tinham deixado seus resquícios, seus miasmas, seus eflúvios,
seus líquidos naquele chão de mármore e naquele ambiente tão bonito!
Poderia vir o próprio Érico Veríssimo para me dizer que aquilo não era
verdade, que era apenas coisa de livro, que eu não iria acreditar! De
jeito nenhum tive coragem de subir naquele coreto uma vezinha que fosse!
E pensar que tem gente em Cruz Alta
que não liga muito, não, para toda aquela magia que anda espalhada por
lá tudo!
Blumenau, 25 de Agosto de 2007.
Urda
Alice Klueger
Escritora
|