Em muito poucos meses as galinhas
e os galinhos (chamam-se frangos, em tal época da vida) estão
prontos para a reprodução, e quando os hormônios de uma galinha
velha ou nova se altera para completar seu ciclo de reprodução, ela
deixa de ser chamada de galinha e passa a ser uma choca. Por mais
macia e amiga que seja, uma galinha choca se transforma
incrivelmente: muda de voz, enclausura-se num ninho, mesmo que sob
ela não exista um ovo sequer a ser chocado, passa a comer só umas
duas ou três vezes por semana – é uma mudança impressionante. Quando
se dá a uma galinha em tal estado hormonal um bom ninho cheio de
ovos devidamente fertilizados, coisa que eu ainda não entendia como
funcionava, ela toma conta dele com tal precisão e carinho,
aquecendo os ovos praticamente todo o tempo sob ela mesma,
virando-os e revirando-os com o auxílio do bico, conforme o instinto
lhe manda fazer, e em apenas 21 dias os transforma em... pintinhos!
Há poucas coisas no mundo mais
fascinantes do que se observar tal ciclo de vida e o nascimento de
um pintinho! No máximo, no máximo, põe-se sob uma choca umas duas
dúzias de ovos – normalmente dá-se a elas uns 20, 21 ovos – e se
tudo corre bem, nascem 20 ou 21 pintinhos. Desde a minha
pré-adolescência era eu a encarregada de cuidar de tais coisas, na
minha casa, de tanto que gostava de fazê-lo – e eu sabia coisas que
as crianças de hoje nem imaginam, como se o ciclo dos 21 dias de
incubação dos ovos coincidisse com a lua cheia, já no vigésimo dia
haveria pintinhos fazendo pequenos ruídos como pios e forçando as
cascas dos ovos, abrindo buraquinhos nelas para já ir saindo um dia
antes do prazo. Se a lua não era cheia ... bem, aí demorava, mesmo,
21 dias para o nascimento daqueles serezinhos que eram pura magia, e
que em apenas três semanas tinham como que surgido do nada e se
tornado tão fortes que, tão logo abriam o primeiro buraquinho na
casca do ovo com um biquinho de nada, um pedacinho amarelo de uma
substância mais dura, tratavam logo de pôr em ação toda a força
contida nos minúsculos corpinhos, e forçavam os pés, as pernas, as
asinhas ainda implumes, e em pouco tempo, algo entre poucos minutos
ou poucas horas, quebravam todo o ovo e se tornavam pequenos seres
completamente novos no mundo!
Pintinhos nascem prontinhos para
a vida – apenas, quando abandonam a casca do ovo, ainda estão
molhados e meio tontos, coisa que uma galinha choca resolve
rapidamente, puxando-os com o bico para baixo de si própria, onde
eles, em poucos minutos, perdem a tontura e secam, virando aquelas
bolinhas de penugem que é o que algumas crianças, hoje, às vezes
vêem na televisão.
Ah! A inigualável graça, maciez e
delicadeza de um pintinho nos seus primeiros dias de vida! Depois
dos 10 ou 15 minutos que levam para secar, eles estão prontos para
comer, para brincar, para correr – e como são doces e confiantes,
assim naquele jeitinho de bebê coberto de penugens amarelas ou
cinzentas, que é como normalmente nascem! Pode-se criá-los em
granjas, por exemplo, aquecendo-os com o calor de uma lâmpada
elétrica, por exemplo, e ainda na minha infância cheguei a viver
algumas experiências assim – mas o maior fascínio de todos está na
completa relação de proteção que há entre uma galinha choca e seus
filhotes.
No mesmo dia em que os pintinhos
nascem, a choca já sai a passear com eles por tudo onde lhe é
permitido ir, e esgaravata o chão procurando minhocas ou insetos, já
a ensiná-los a sobrevivência, a chamá-los com a sua voz
hormonalmente alterada, e os ensina a comer ração ou uma coisa
chamada carolo, que era muito usada lá no passado, que não passa de
milho moído numa complexa máquina que tem o complexo nome de
“máquina de fazer carolo”! Tudo vai bem até que surja qualquer sinal
de perigo: pode ser um gato que apareça por ali, ou algum barulho
estranho, ou apenas um susto indefinível – qualquer que seja o medo
da choca, e ela dá um sinal com a sua voz de choca, e todas aquelas
bolinhas de penugem num instante correm para ela e somem – nem o
mais ativo gavião, se for o caso, será capaz de encontrar um
pintinho numa hora assim!
Atenta, a choca espia, calcula,
vigia, sente – em algum momento, ela se certifica que o perigo já
passou, e então ela dá outro sinal com sua voz, e um primeiro
biquinho e um parzinho de olhos espia de dentre as suas penas, e
depois outros, e logo uma enfiada de pintinhos volta de novo à faina
onde estava. Quando escurece, a operação se repete, e os pintinhos
dormem toda a noite completamente escondidos pelas penas da choca.
Algumas há que são tão cuidadosas com a prole, que eles crescem, já
estão quase virando frangos, e continuam sumidos sob a mãe noite
após noite, espiando por entre as penas delas já uns latagões sem
nenhuma plumagem, cobertos de penas coloridas ou brancas e com duros
bicos de quem já sabe muito bem se virar sozinho. Até hoje não
entendo como cabem aqueles quase frangões escondidos assim sob uma
galinha só!
Há muito mais a contar sobre
aqueles meus amigos do passado. Volto ao assunto em outro dia.
Blumenau, 25 de março
de 2007
Urda Alice Klueger -
escritora