Como eu nunca tinha visto, achava que
nada tinha acontecido no passado do Brasil. Costumava afirmar,
inclusive, que o índio brasileiro se limitara a caçar, a pescar e a
tomar banho de rio, não deixando nem uma ruinazinha do seu passado para
que pudéssemos visitar. Daí, neste ano (1997), no curso de História que
estou fazendo, estudei um pouco de Arqueologia, e estou até agora de
queixo caído.
Para
quem vive próximo do nosso litoral, é comum conhecer ou saber que
existem Sambaquis por aí. O que é um Sambaqui? É um amontoado de cascas
de conchas e de ostras, medindo até 30 metros de altura, e, algumas
vezes, com vários quilômetros de extensão. Alguém viveu no nosso litoral
e fez os Sambaquis, e nele enterrou os seus mortos, algum dia. Há muitos
corpos enterrados nos Sambaquis, e eu, quando adolescente, cheguei a ver
dois esqueletos desenterrados de um Sambaqui, com todos os seus ossos e
suas arcadas dentárias, e prestei atenção em como os dentes daqueles
antigos habitantes de Santa Catarina estavam desgastados pela
mastigação.
Daí vem
outra pergunta: quem fez os Sambaquis? Quase cem por cento das pessoas
respondem: “Foram os Índios!”
Então
vem a minha surpresa, ao estudar um pouquinho da nossa Arqueologia: quem
fez os Sambaquis não foram os Índios, nem foram os antepassados dos
Índios. Quem viveu pelo nosso litoral, desde o Estado do Espírito Santo
até o Uruguai, há 6.000 anos atrás, foi um outro povo que aqui viveu
antes dos Índios. Os Índios chegaram por aqui há uns 2.500 anos atrás e,
provavelmente, por algum tempo conviveram com os Sambaquianos, e talvez
até tenham havido casamentos entre os dois povos, mas os Sambaquianos
não eram os Índios, e um dia foram-se embora, não se sabe para onde.
Os
Sambaquianos tinham coisas bem adiantadas, como a sua indústria lítica.
Devem ter sido adiantados em outras coisas, mas o que fizeram em
madeira, em palha, etc., os últimos 6.000 anos encarregaram-se de fazer
desaparecer. As coisas em pedra, porém, ficaram, e são impressionantes.
Em Joinville(SC), há o Museu do
Sambaqui. Estive lá vendo ao vivo o que tinha visto em
slides
no meu curso de História, e estou boba até hoje. Aqueles caras lá do
passado, lá de 6.000 anos atrás, não se limitavam a fazer artesanato:
eram verdadeiros artistas, com conhecimentos profundos da natureza e da
proporção das coisas, e as peças que deles conhecemos, hoje, são mais
que um encanto! Elas estão lá no Museu do Sambaqui, e a gente quase não
acredita quando as vê: porquinhos-do-mato, duas rolinhas transando,
peixes e outros animais, além de instrumentos e objetos para o uso
diário, de um equilíbrio estético e uma proporcionalidade ímpares, de
dura pedra perfeitamente polida, quase com o aspecto de vidro.
Fascinou-me sobretudo uma baleiazinha, linda, simpática, com olhinhos,
boquinha quase sorridente, barbatanas e tudo o mais, uma verdadeira peça
de artista, feita há 6.000 anos atrás à beira do nosso mar, por gente
que tinha pouquíssimos recursos. A baleiazinha é tão perfeita e polida
que parece um moderno brinquedo de plástico – é uma comparação grosseira
para uma obra de arte, mas que pode dar a medida do avanço tecnológico
das gentes antigas que aqui viveram.
E eu que
pensava que não tinha acontecido nada no passado do Brasil e de Santa
Catarina! Estudar esse pouquinho de Arqueologia deu-me toda uma nova
visão do que desconhecemos, e fez com que eu deixasse de ter inveja dos
países andinos, com seus ricos Museus Arqueológicos!
Blumenau, 10
de Janeiro de 1998.
Urda Alice
Klueger