
Crônicas
Urda
Alice Klueger
|
Outono na Barra do
Camacho |
Hoje, enquanto o meu amor continua lá do outro lado do mundo, no Norte onde
agora é Primavera, tomei eu o rumo do Sul, afastei-me fisicamente ainda mais
dele, mas diria que a energia que me une àquele Príncipe-passarinho só fez
aumentar no decorrer da estrada longa, onde cruzei, tantas vezes, com
andorinhas, gaivotas e outras aves que arribam sabendo que estão no limite do
seu tempo para atingirem o Tempo da Multiplicação. O meu amor foi para o Norte
perseguindo a Primavera; os outros passarinhos também estão indo – vindo ao Sul,
persigo eu o Passado.
Em parcas cinco horas de estrada cheguei eu a essa Barra do Camacho, lugar onde
a boca da imensa lagoa que parece o mar deságua naquele, entre imensas dunas que
parecem de açúcar branco, e que se movimentaram bastante, desde que aqui estive
a última vez, pois andaram se enfiando dentro de algumas casas. Saí da pousada
de tardinha, como que farejando a História, e entre tantas ruas e tantas casas
fica meio complicado viajar no tempo – mas depois que saí para a imensa praia de
dunas e caminhei por ela até o anoitecer, era possível deixar a imaginação voar
solta.
Assim neste friozinho de Outono, não estão aqui os turistas, sequer os
paraguaios, que como que se adonaram destas terras – é tão impressionante, no
verão, descobrir que há uma área paraguaia no Estado de Santa Catarina! É também
impressionante ver vazias as dunas que no verão estão repletas de gente que fala
um espanhol adoçado pela língua Guarani – hoje tais dunas que se perdem nas
brumas da imensidão do Sul estão vazias, desertas, e quando, lá muito longe,
despontaram duas minúsculas figuras humanas andando na minha direção, eu como
que voei para o passado e senti-me na pele de alguém que aqui viveu um dia, há
2, ou há 4, ou há 6 mil anos antes do presente. Como sou filha do século XXI
d.C., pensei: “Pôxa, não serão inimigos? Será seguro encontrá-los?” – e então me
dei conta que pensara exatamente o que alguém talvez pensara naquele mesmo lugar
numa situação igual milhares de anos antes de mim.
Disse que aqui viera perseguindo o passado – e o quanto é forte o passado aqui!
São cerca de meia centena os Sambaquis cadastrados neste hoje pequeno município
agrícola onde veraneiam os paraguaios, chamado Jaguaruna – quantos haverá que
ainda não foram encontrados? Só em um dos Sambaquis, onde deverei passar os
próximos dias, aquele que se chama Jabuticabeira II, estima-se que haja para
mais de 43.000 pessoas enterradas. Já estive lá outras vezes, e é como viver os
meus melhores sonhos de infância. Como não consegui ser arqueóloga, que era o
sonho nº 1, acabei me tornando historiadora, conseqüência natural, e já contei
em alguma crônica, mais para o passado, como fico, com certeza, incomodando um
monte os arqueólogos, pisando onde não devo, imaginando coisas que não devo,
quando se trata de uma ciência que prima pela exatidão.
Então, agora à noitinha, temi pelo encontro com pessoas que eu não sabia quem
eram, do mesmo jeito que, decerto, pessoas do passado temeram um dia, milhares
de anos atrás. Achei melhor, então, caminhar pelas dunas na direção oposta, lá
para onde é a goela da Lagoa produtora de abundante alimento ao longo de
milênios, e onde tarrafeavam alguns homens do presente. Como se fosse um ser
humano do passado, parecia-me mais seguro estar na proximidade de um grupo. Ah!
Estas coisas atávicas nas quais nunca pensamos!
É bem sofrido o caminhar na areia refinada e fofa das dunas – pensei que os
humanos que aqui viveram no passado eram mais bem treinados que eu, não usavam
incômodos tênis e nem roupas incomodativas. Mas então sentiriam frio, pois este
clima de hoje é o mesmo “ótimo climático” de 6.000 anos atrás, aqui no Sul deste
meu continente. Como os meus irmãos que dormem seu último sono dentro dos
Sambaquis se protegiam, então? Ah! Há tanto a saber, tanto a descobrir! A
História e a Arqueologia andam apenas tateando no que deve ter acontecido um dia
em torno da Lagoa do Camacho, essa lagoa que parece um mar!
Quase escurecia quando vi a garça, tão branca entre a areia branca e a espuma
branca do mar! Atentamente, espiava ela a água das ondas que iam e vinham – até
que, num átimo de segundo, ela bicou a água e garantiu a sobrevivência! Trêmulo
peixe prateado ficou atravessado no seu fino bico, e calmamente ela o devorou
totalmente contra a vontade dele! No céu que iria empretecer em seguida, parecia
haver todas as tonalidades possíveis do rosa. Ah! Meu amor, é muito lindo o
Outono no Sul do mundo, também! Como queria que você tivesse visto o que vi!
Escrevi esta crônica tentando passar para os seus olhos que estão às voltas com
as flores da Primavera os encantos que o Outono pode ter nas proximidades de uma
lagoa que é quase uma testemunha muda das coisas do passado – pois ao redor
dela, como que em páginas de um livro, os arqueólogos podem ler camadas e
camadas da nossa História tão antiga! Venha um dia ver as dunas brancas da boca
da lagoa comigo, meu Passarinho! Quem sabe aquela garça apareça de novo e encha
de novo de magia o fim da tarde para você!
Barra do Camacho, 28 de maio de 2006.
Urda Alice Klueger
Escritora