PASSARINHO RUMO AO NORTE – MARÇ0
O meu amor voa pelo céu no rumo norte como
os passarinhos vão fazer daqui a pouco! É começo de março; apesar do
grande calor o mundo já está com cara de outono, e lá no sul do mundo as
aves devem estar a começar a se preparar para a sua grande viagem até o
os campos de alimentação que ficam na região do outro pólo. Algum tipo
de inquietação começa a haver dentro delas – quem pode explicar tal
coisa? Ou talvez elas tenham olhares matemáticos e façam contas do
tamanho das sombras que o outono traz. Mas prefiro pensar que as aves
não são matemáticas – prefiro pensar que elas seguem o coração, e a
tremura que dá dentro dele quando o tempo do outono vem chegando, e que
é por isto que um dia elas olham para o céu, e como se todas tivessem
combinado de antemão, lançam-se em conjunto à sua viagem alada até o
lado do mundo onde está a chegar a primavera.
Parece que o meu amor também sabe de
tal coisa – deve saber; não tem ele um delicado passarinho por dentro,
que faz às vezes de coração? O fato é que neste momento ele deve estar
cortando os céus, voando para o norte, bem como as aves farão daqui a
pouco.
Ontem, ao pôr-do-sol, sai caminhando
pelo meu trajeto costumeiro, aquela rua que hoje é asfaltada, mas que,
na minha infância, não passava de um aceiro onde se cortava caminho para
casa quando minha mãe, com as três crianças pequenas e cansadas,
resolvia voltar depois de ter comprado tecidos coloridos nas Casas
Pernambucanas para fazer-lhes vestidinhos novos, e tomava um
carro-de-molas, que era o táxi daquele tempo. A vida correu e a cidade
cresceu, e hoje aquele trilho do meio da verdura é uma rua asfaltada,
mas a verdura continua, mata virgem de um lado, o rio e muitos capinzais
e outros matos do outro. Tudo está crescido e amadurecido, bem como o
final do verão, e cada talo de fino capim termina no alto com uma espiga
de sementes maduras, sem contar as outras plantas. Milhares de
passarinhos de todos os tamanhos estavam por todo o lado se
empanturrando de sementes; uns eram tão pequeninos e leves que podiam
pousar nos finos talos de capim sem sequer curvá-los, passarinhos tão
delicados e suaves como aquele que habita a alma do meu amor. E ao longo
da rua asfaltada, tanto na mata quanto nos capinzais crescidos ou em
qualquer canto que se olhasse, havia todo um jeito de mistério, de
encantamento de contos de fadas, aquele jeito de pré-outono que a gente
sente no ar, nas sombras, na leveza de brisas inesperadas que correm
dentro do calor e nos faz pensar em camisetas cor-de-rosa de mangas
compridas e sapatinhos fechados, mesmo que ainda seja tão quente!
Lá no pólo-sul decerto muitos
milhões de aves também estão à espreita dessas sutis mudanças que pude
sentir ontem na natureza; daqui a pouco empreenderão sua viagem para
onde estiver grassando a primavera.
Sempre disse que o meu amor tem um
passarinho por dentro – como poderia ele pressentir a leveza quase
inapercebível de tais mudanças se não fosse como um passarinho? Pois
sentiu, e neste momento atravessa os céus em prateado vôo rumo ao norte,
bem como vão fazer daqui a pouco os passarinhos que estão lá no pólo
sul!
Voe bem, meu passarinho, voe sem
percalços até lá onde é o seu norte! Fico aqui torcendo pelo seu vôo, e
sabendo com mais força ainda que você é o meu amor por causa da sua alma
de passarinho!
Blumenau, 06 de março de
2006.
Urda Alice Klueger – escritora.
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