Nas noites de lua cheia, quando
todos dormem na casa, eu me esgueiro de mansinho pela porta dos
fundos, e venho até aqui na Pedra do Meio tentar botar em ordem o
meu coração que é tão sensível à Lua. Uma vez ou outra vim até aqui
com meu vestido de cambraia branca, que conservo sempre tão bem
passado e engomado, por achar que ele tinha uma identificação com a
Lua, e acho que foi ele quem criou um amedrontado falatório que
correu pela praia tempos atrás, onde se dizia que uma alma penada
vagava em direção da Pedra do Meio nas noites de lua cheia. Não me
espantou ouvir aquilo: meu vestido de cambraia é leve e voa ao
vento, e há uma descida suave que leva da Rua de Cima à Pedra do
Meio, e só pessoas movidas pelo amor, como eu, para se atreverem
dentro da escuridão, quando quase todos dormem, para ir conversar
com a Lua num lugar assim solitário. Há de alguém ter visto o
esvoaçar do meu vestido branco sob a branca luz da Lua, para achar
que uma alma penada andava perdida naquela direção.
Nada disse, quando ouvi os
comentários, mas fiquei contente. Se se acreditava que havia uma
alma penada, aumentava a minha segurança e a minha solitária
conversa com a Lua ficava mais garantida. Mas deixei de usar o meu
vestido branco em tais noites. Achei melhor vestir-me de verde, usar
aquele vestido engomado que é xadrezinho em verde, preto e branco –
fica uma cor difusa que some na escuridão da noite, e então prendo
os cabelos no meu lenço de seda verde que, um dia, um antigo avô
trouxe no seu embornal quando, envelhecido, arribou das Índias e
veio com tal prenda para uma antiga avó. Geração após geração este
lenço foi tão bem guardado que nunca desmereceu nem na textura e nem
na cor – fui a primeira a retirá-lo de verdade do fundo baú onde se
escondia e a cobrir com ele os meus cabelos, e vez ou outra usá-lo
ao pescoço, em dias de tempo frio.
Conheço a Pedra do Meio desde que
era criança – sei de cada uma das suas saliências e de cada
reentrância; sei dos diques negros com que ela afronta as altas
marés e as tempestades, e sei do laguinho inocente que se abriga no
seu interior, transparente laguinho que molha a barra do vestido, de
fundo de areia, e que comporta algas verdes, a agilidade de
disparadas baratas d’água e de peixinhos e caranguejinhos
minúsculos. A cada alta maré a água do laguinho é renovada, e ele é
para mim como a palma da minha mão, de modo que não tenho o menor
receio de vir até aqui de noite, ainda mais sob a luz da lua cheia,
que tudo clareia e tudo revela quando se têm os olhos treinados.
Penso: quantas marés houve que
entraram no laguinho desde que o meu amor partiu naquele navio que
decerto um dia voltará? Muitas, muitas centenas, muitas milhares. O
tempo é inexorável e nunca uma maré deixa de vir, quando é seu
tempo, embora o meu marinheiro esteja deixando passar o tempo de um
dia chegar antes que o verão da vida termine. Mas, afinal, aquele
navio está tão longe, lá naqueles mares gelados, que não deve ser
nada fácil voltar, e ele tem que se contentar com os portos frios
aonde há escalas. Na verdade, acho que o verão já se foi mesmo, e
que agora quem esteja adiantado seja o outono.
De qualquer forma, aqui na Pedra do
Meio, na noite de lua cheia, o ar marinho ainda é tépido e a água da
lagoinha também o é. Sento-me numa pedra à meia altura, os pés
dentro da água cheia de vida, e mexo com os dedos a areia tantas
milhares de vezes lavada, e o movimento da água forma círculos
concêntricos que como que embaçam o espelho que é aquela água e
deixam toda trêmula a imagem da lua ali refletida. E enquanto a lua
tremeluze ali embaixo, eu volto o rosto para o céu, para onde está a
Lua verdadeira com o seu São Jorge e o Dragão, e a estrela Vésper
por perto, e com ela posso conversar a minha saudade e a minha
esperança.
Só a Lua para me dar arrego em
noites assim, e volto para ela o rosto vincado pelo tempo, o rosto
de um outono que se vai inexoravelmente, e então confabulo:
- Lua, não tens como fazer um
milagre? Quem sabe estes teus raios possam vir, costurar alguns
destes vincos, acetinar de novo um pouco a minha face que já perdeu
quase todo o brilho, instilar-me de volta a juventude que ficou
perdida? Um dia meu marinheiro volta – como queria ser bela e jovem
quando ele chegar, como queria ter o teu resplendor!
A Lua me ouve, a Lua sabe. Ninguém
sabe tanto quanto ela sobre o que me vai por dentro. Às vezes ela
pisca rapidamente e me manda uma mensagem: meu marinheiro está com
saúde lá no tombadilho de um navio muito gelado, usando sua capa de
borracha – astro dos céus, ela tudo sabe e tudo vê.
Emociono-me, então, e às vezes penso
que nem tem importância os vincos do tempo no meu rosto, que a real
importância de tudo está no coração. Eu penso isto, mas que pensará
meu marinheiro quando me vir assim em tempo adiantado na vida? No
entanto, o recadinho da Lua, de que ele está com saúde lá naquele
distante tombadilho, me devolve a autoconfiança, e vago para casa no
escuro da noite, vestida de verde, e durmo como que encantada, pois
agora sei um pouquinho dele.
Quando a manhã chega e abro minha
janela para a baía, os meus olhos vão diretamente para o trapiche, e
a minha primeira procura é se não chegou algum navio estranho
naquela noite. Um dia o navio chegará, e então, com ou sem os vincos
do tempo, eu correrei pelo trapiche afora e me ajoelharei diante
daquele meu príncipe-marinheiro, e talvez também nele haja vincos do
tempo, do sal e do frio, mas nada disto terá importância para mim: o
que importará será a alegria infinita que haverá dentro do meu
coração, e eu tomarei as mãos dele e, genuflexa, direi:
- Meu senhor...
Será, então, o tempo da alegria
perfeita.
Blumenau, 18 de julho de 2008
Urda Alice
Klueger
Escritora