Crônicas

Urda Alice Klueger


Pedra Do Meio

Nas noites de lua cheia, quando todos dormem na casa, eu me esgueiro de mansinho pela porta dos fundos, e venho até aqui na Pedra do Meio tentar botar em ordem o meu coração que é tão sensível à Lua.  Uma vez ou outra vim até aqui com meu vestido de cambraia branca, que conservo sempre tão bem passado e engomado, por achar que ele tinha uma identificação com a Lua, e acho que foi ele quem criou um amedrontado falatório que correu pela praia tempos atrás, onde se dizia que uma alma penada vagava em direção da Pedra do Meio nas noites de lua cheia. Não me espantou ouvir aquilo: meu vestido de cambraia é leve e voa ao vento, e há uma descida suave que leva da Rua de Cima à Pedra do Meio, e só pessoas movidas pelo amor, como eu, para se atreverem dentro da escuridão, quando quase todos dormem, para ir conversar com a Lua num lugar assim solitário. Há de alguém ter visto o esvoaçar do meu vestido branco sob a branca luz da Lua, para achar que uma alma penada andava perdida naquela direção.

Nada disse, quando ouvi os comentários, mas fiquei contente. Se se acreditava que havia uma alma penada, aumentava a minha segurança e a minha solitária conversa com a Lua ficava mais garantida. Mas deixei de usar o meu vestido branco em tais noites. Achei melhor vestir-me de verde, usar aquele vestido engomado que é xadrezinho em verde, preto e branco – fica uma cor difusa que some na escuridão da noite, e então prendo os cabelos no meu lenço de seda verde que, um dia, um antigo avô trouxe no seu embornal quando, envelhecido, arribou das Índias e veio com tal prenda para uma antiga avó. Geração após geração este lenço foi tão bem guardado que nunca desmereceu nem na textura e nem na cor – fui a primeira a retirá-lo de verdade do fundo baú onde se escondia e a cobrir com ele os meus cabelos, e vez ou outra usá-lo ao pescoço, em dias de tempo frio.

Conheço a Pedra do Meio desde que era criança – sei de cada uma das suas saliências e de cada reentrância; sei dos diques negros com que ela afronta as altas marés e as tempestades, e sei do laguinho inocente que se abriga no seu interior, transparente laguinho que molha a barra do vestido, de fundo de areia, e que comporta algas verdes, a agilidade de disparadas baratas d’água e de peixinhos e caranguejinhos minúsculos. A cada alta maré a água do laguinho é renovada, e ele é para mim como a palma da minha mão, de modo que não tenho o menor receio de vir até aqui de noite, ainda mais sob a luz da lua cheia, que tudo clareia e tudo revela quando se têm os olhos treinados.

Penso: quantas marés houve que entraram no laguinho desde que o meu amor partiu naquele navio que decerto um dia voltará? Muitas, muitas centenas, muitas milhares. O tempo é inexorável e nunca uma maré deixa de vir, quando é seu tempo, embora o meu marinheiro esteja deixando passar o tempo de um dia chegar antes que o verão da vida termine. Mas, afinal, aquele navio está tão longe, lá naqueles mares gelados, que não deve ser nada fácil voltar, e ele tem que se contentar com os portos frios aonde há escalas. Na verdade, acho que o verão já se foi mesmo, e que agora quem esteja adiantado seja o outono.

De qualquer forma, aqui na Pedra do Meio, na noite de lua cheia, o ar marinho ainda é tépido e a água da lagoinha também o é. Sento-me numa pedra à meia altura, os pés dentro da água cheia de vida, e mexo com os dedos a areia tantas milhares de vezes lavada, e o movimento da água forma círculos concêntricos que como que embaçam o espelho que é aquela água e deixam toda trêmula a imagem da lua ali refletida. E enquanto a lua tremeluze ali embaixo, eu volto o rosto para o céu, para onde está a Lua verdadeira com o seu São Jorge e o Dragão, e a estrela Vésper por perto, e com ela posso conversar a minha saudade e a minha esperança.

Só a Lua para me dar arrego em noites assim, e volto para ela o rosto vincado pelo tempo, o rosto de um outono que se vai inexoravelmente, e então confabulo:

- Lua, não tens como fazer um milagre? Quem sabe estes teus raios possam vir, costurar alguns destes vincos, acetinar de novo um pouco a minha face que já perdeu quase todo o brilho, instilar-me de volta a juventude que ficou perdida? Um dia meu marinheiro volta – como queria ser bela e jovem quando ele chegar, como queria ter o teu resplendor!

A Lua me ouve, a Lua sabe. Ninguém sabe tanto quanto ela sobre o que me vai por dentro. Às vezes ela pisca rapidamente e me manda uma mensagem: meu marinheiro está com saúde lá no tombadilho de um navio muito gelado, usando sua capa de borracha – astro dos céus, ela tudo sabe e tudo vê.

Emociono-me, então, e às vezes penso que nem tem importância os vincos do tempo no meu rosto, que a real importância de tudo está no coração.  Eu penso isto, mas que pensará meu marinheiro quando me vir assim em tempo adiantado na vida? No entanto, o recadinho da Lua, de que ele está com saúde lá naquele distante tombadilho, me devolve a autoconfiança, e vago para casa no escuro da noite, vestida de verde, e durmo como que encantada, pois agora sei um pouquinho dele.

Quando a manhã chega e abro minha janela para a baía, os meus olhos vão diretamente para o trapiche, e a minha primeira procura é se não chegou algum navio estranho naquela noite. Um dia o navio chegará, e então, com ou sem os vincos do tempo, eu correrei pelo trapiche afora e me ajoelharei diante daquele meu príncipe-marinheiro, e talvez também nele haja vincos do tempo, do sal e do frio, mas nada disto terá importância para mim: o que importará será a alegria infinita que haverá dentro do meu coração, e eu tomarei as mãos dele e, genuflexa, direi:

- Meu senhor...          

Será, então, o tempo da alegria perfeita.

                                   Blumenau, 18 de julho de 2008

                                   Urda Alice Klueger

                                   Escritora 

voltar