O brasileiro, de uma forma geral,não dá muita importância à América, e
costuma achar a Europa o máximo. Eu costumo falar com pessoas que vão
para a Europa (aqui em Blumenau tem de monte) fazer à pé o Caminho de
Santiago de Compostela, que tem alguma coisa perto de 1.000 quilômetros,
dependendo do ponto de partida (França, ou até mesmo Itália), e que vai
até à Igreja de Santiago de Compostela. Para os leigos eu explico um
pouco mais: Santiago é São Tiago, o apóstolo de Jesus Cristo, que,
segundo a lenda, teria vindo dar com os costados na Espanha antes de
morrer e sido enterrado onde hoje há uma grande basílica que o
homenageia, em Compostela. Se olharmos para o mapa do Mediterrâneo e
observarmos como tudo ali é bastante próximo (a Palestina e a Espanha),
e como já havia grande navegação naquele mar que fica no meio dos
continentes, à época do Império Romano e de Jesus Cristo, a história
torna-se bastante verossímel.
Pois bem, brasileiros em penca vão lá
fazer o Caminho de Santiago de Compostela, principalmente depois que um
escritor brasileiro famoso andou dizendo que teve lá experiências
místicas e deixou todo o mundo doido para ir lá também, e quem sabe ver
uma aparência-da-meia-noite em plenas terras estrangeiras. Na prática,
na prática, o que eles voltam contando é das excelentes pousadas, e das
fontes que jorram vinho em praças de esquecidas aldeias. Cá comigo tenho
que um bom excesso de vinho nos leva a qualquer coisa, até a
experiências místicas.
Bem,mas há uma coisa em que toda a
gente que faz o Caminho de Santiago de Compostela concorda: a
dificuldade de vencer os Pirineus. De novo para os leigos, explico: os
Pirineus são uma cadeia de montanhas que separa a Península Ibérica do
resto da Europa. Como outro dia descobri que os alunos estão saindo da
escola sem saber o que é península,de novo explico o que aprendi lá no
passado, com a minha professora Irmã Maria Rosária: península é um
pedaço de terra cercado de água por todos os lados, menos um, que o liga
ao continente. Então, quando dizemos Península Ibérica, estamos dizendo
Portugal e Espanha – e quando falamos nos Pirineus, quer dizer que é a
cadeia de montanhas que liga a Península Ibérica ao resto da Europa.
Se vocês derem uma volta por aí num
final de semana e acharem gente com cara de normal e cajado na mão, a
tentar subir morros pelo seu lado mais difícil, é quase certo que estão
a encontrar alguém que se prepara para fazer o Caminho de Santiago de
Compostela e, conseqüentemente, vencer os Pirineus.
Daí, pasmem: essa gente que vai fazer
o caminho de Santiago de Compostela atravessa a cadeia dos Pirineu em um
único dia!
- Tem que levantar bem cedo! –
explicam. – E tem que ter um treinamento!
Ta, ta tudo certo,mas quero chegar é
no ponto que uma pessoa à pé atravessa os Pirineus em um único dia – vá
fazer isto nos Andes! Já atravessei os Andes de diversas formas: avião,
ônibus, moto. Como a travessia mais emocionante foi de moto, conto para
vocês que, a 110 quilômetros por hora, a gente leva TRÊS dias para
atravessar os Andes – e o encanto dos Andes é algo inigualável, como não
tem montanha na Europa que suplante! Era só para botar um gostinho de
vontade de conhecer um pouquinho mais de América, porque a história que
quero contar é mesmo sobre os Pirineus.
Um dia eu estava em Madrid e comprei
uma passagem de trem para ir a Paris. Penso que o trem saía lá pelas
seis da tarde, para chegar à Paris pelas dez da manhã. Sentei-me
comportadamente na cabine do vagão, onde seis pessoas de diversas
nacionalidades deveriam conviver até a manhã seguinte,inclusive dormindo
nas simpáticas camas individuais que eram montadas tão logo escurecia, e
tentei me entender com elas. Era primavera, e penso que só anoitecia lá
pelas dez da noite, o que significava muito tempo sem ter o que fazer e
sem conseguir conversar nada direito com aquelas gentes de outras
línguas, a não ser ficar espiando a paisagem seca e pedregosa do norte
da Espanha. Então fiz o que um bom brasileiro trata de fazer logo: vesti
a camisa da Seleção e fui dar uma volta no trem. Isto foi antes de
Romário e Ronaldinho serem ídolos na Espanha, e a camisa era da Seleção
mesmo, aquela do Araquém, quero ver quem se lembra! Mando um doce para
as pessoas mais velhas que ainda têm na memória a camisa do Araquém!
Pois bem, devidamente fardada com a
camisa do Araquém, dei uma volta geral por todo o trem, e o que
aconteceu? Tudo quando é brasileiro a bordo me reconheceu
entusiasmadamente, desde uma modelo internacional famosa até uns meninos
de Goiânia que iam tentar a sorte na Inglaterra, e não deu outra: fomos
todos parar juntos no vagão restaurante, e haja bebida para tanta gente
que estava com saudade da pátria!
Conversa de cá, conta causo de lá,
acabou anoitecendo, e a cerveja e o cuba-libre corriam ao redor de nós
que era uma beleza. Contagiado pela nossa alegria tanto pátria quanto
etílica, juntou-se a nós um africano negro, homem muito alto e forte,
interessado em conhecer esses tais de brasileiros. Já noite fechada,
pessoa responsável, no trem veio recolher todos os nossos passaportes:
iríamos entrar na França de madrugada e evitariam de nos acordar.
Na verdade, naquela altura a gente
estava pouco se lixando para os passaportes – eu, pelo menos, estava
mais interessada era na perfeição como se faziam, na Espanha, os
cuba-libres. Foi então...
Pois é, tem sempre o foi então. Foi
então que, em algum momento, lá pelo alto dos Pirineus, o nosso trem
parou. O que havia acontecido? Até agora não sei. Espiamos pelas
janelas, e ali não havia cidade, aldeia ou estação: só escuridão lá
fora. Decerto o maquinista duvidara de algum freio ou algo assim e
parara para dar uma olhada.
Tem uma coisa nesses trens, assim
como têm nos metrôs que conheço: quando eles param, automaticamente as
portas se abrem. Imaginem o que aquele bando de brasileiros fez tão logo
as portas do vagão-restaurante abriram: pulou todo o mundo para a
escuridão lá fora, e mais um pouco haveria um Carnaval sobre as alturas
dos Pirineus.
Foi então ... bem, o maquinista já
deveria ter testado os freios, e o trem voltou, lentamente a rodar, o
que significa que suas portas passaram a automaticamente irem se
fechando de novo. Susto nos Pirineus! E nós, ali naquela escuridão, no
meio do nada, cheios de “razão” e sem sequer passaporte? O que fazer a
não ser correr desesperadamente para o trem e ir se enfiando pelas
portas que ainda estavam semi-abertas? O problema era que era muito
brasileiro para pouca porta, e um bocado de nós iria sobrar lá na
escuridão dos Pirineus, com o trem se afastando inexoravelmente. Foi
então ... pois é, eu contei que simpático e forte africano se juntara à
nossa farra brasileira! Foi então que o africano fortão subiu numa das
portas do trem, encostou as costas de um lado e as fortes mãos do outro,
impedindo o automático de funcionar, e aquela dita porta não tinha como
se fechar enquanto ele ali permanecesse! Salvos pela África! Como
cachorrinhos com o rabo entre as pernas, entramos correndo sob os braços
do africano, em fila indiana, atropelando-nos um no outro, e, ufa! ...
quando vimos, estávamos todos de volta dentro do trem! Abençoado
africano de bons músculos e bom coração, que impedira que ficássemos
perdidos no alto dos Pirineus!
Ainda tomamos algumas, para passar o
susto, claro, fazendo muitos brindes ao africano. Que teria sido de nós
lá no alto daquela cordilheira, no meio do nada, sem sequer passaportes?
Ainda bem que tudo terminara bem!
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