
Crônicas
Urda Alice Klueger
|
Pseudo-Primavera? É primeiro de outubro e saí para votar. Votei na Esperança que, na minha ótica, cada vez mais se consolida nesta minha Abya Ayalla. Havia flores pelo caminho: nos canteiros das ruas, nos jardins, nas mãos das pessoas. Os ipês estão floridos. Até roubei algumas flores na volta, sob uma chuva fina – são lindas ali no meu vaso. No entanto, fica a dúvida: será Primavera? Haverá Primavera neste ano? É muito difícil dizer; é muito difícil saber. Será que os ipês que vi eram mesmo de ouro ou meros ipês pintados a pincel, com um amarelo qualquer? Em todo o caso, é tempo de semear no Hemisfério Sul, e na volta, toda molhada de chuva, andei pelas cercanias a procurar boa terra para umas sementes que estão no seu tempo. Sou filha, neta e descendente de uma longa genealogia de agricultores: conheço a terra boa para as semeaduras, e no meu vaso com cara de sofisticado, recolhi boa terra humosa para fazer um leito para as sementes. Elas são sementes muito especiais: são de árvores que crescem à beira do rio Orinoco. Eu viajava pela Venezuela, no começo deste ano, e fui parar numa pequena cidade que se chama Ciudad Bolívar, e que é toda entranhada de História: foi aquele o primeiro pedacinho da América que Simon Bolívar tornou independente da Espanha, e aquela cidade, no passado, se chamava Angostura, e foi lá que foi inventada uma bebida com o mesmo nome, da qual o meu pai gostava tanto. Que pena que eu nunca provei a angostura do meu pai – não sei que sabor tem! Portanto, Ciudad Bolívar está cheia de História (inclusive pré-colonial, e quanta!!!) e também a história da angostura se mescla à minha História pessoal! Ciudad Bolívar está à beira do Rio Orinoco, aquele que a gente lê em romances, e em quantos romances eu já tinha ouvido falar dele! Mas não sabia que, de repente, estaria lá, que olharia para o imenso rio da janela do meu hotel, que desceria à praça da sua beira e ficaria a admirá-lo por horas seguidas, e ao vai-e-vem das gentes que o atravessava! E foi lá naquela praça que colhi as sementes que semeei há pouco na terra gorda da beira da minha rua. Ciudad Bolívar está no Hemisfério Norte, mas penso que as sementes de lá reconhecerão a Primavera do Hemisfério Sul, isto é, se isto que está acontecendo é Primavera. Pela data, pelo fato das eleições, por breves trinados de Passarinho que têm ecoado para dentro do meu mundo, chego a pensar que é Primavera. Mas, e se não for? Nada sei sobre o amanhã – quem me garante que amanhã não será o mais enregelante dos invernos, que o resto da minha vida não será sempre um tempo de gelo? Há as eleições, claro, como promessa de Esperança, e há sementes da beira do Rio Orinoco, que talvez venham a nascer na terra umedecida pela chuva fina – na minha alma, porém, tudo está como que em suspense. Talvez um trinado de Passarinho nunca mais ecoe para dentro dela, e então já nada terá sentido, e a Primavera nunca mais voltará. Como é possível alguma coisa viver sem Primavera? Nem o mais humilde líquen sob o gelo voltará à vida se a Primavera já não vier – que direi eu, se este tempo é apenas uma ilusão? Ai, meu Passarinho, não tenha medo de mim, não vou lhe fazer mal, prendê-lo numa gaiola, cortar-lhe as asas tão amplas e lindas! Quero-o livre e solto para conquistar o espaço, para voar até onde lhe apeteça - mas dê-me o seu trinado, por favor, senão a Primavera já não volta! É muito triste, muito triste, estar assim, sem nem ao menos saber se as sementes da beira do Rio Orinoco terão a chance de germinar! É absolutamente necessária existir a Primavera para que a vida possa continuar. Blumenau 01 de Outubro de 2006. Urda Alice Klueger Escritora |