Crônicas

Urda Alice Klueger

TRAGÉDIA

 

Blumenau, 02 de Dezembro de 2008.

 

 

                                                           Meus queridos:

 

Faz quatro dias que escrevi um texto que mandei para a maioria de vocês – são tantas as mensagens que entram aqui, que não estou conseguindo responde-las, embora as esteja lendo. Achei por bem voltar a escrever um texto coletivo e mandar para todo o mundo de novo, contando da minha situação aqui nas agruras da minha cidade de Blumenau, embora eu esteja MUITO menos mal do que muita gente, e embora haja muita gente em bem melhor situação do que a minha.

                                  

Olho aqui no calendário (voltei a ter um calendário na parede, embora já não more mais na minha casa) e faço as contas: o pesadelo começou  a 21.11, sexta-feira à noite. No sábado, dia 22.11, muito cedo, já tive grande dificuldade de trazer minha mãe para o meu apartamento, onde achava que ela estaria mais bem resguardada do que onde mora. Já não sei dizer quantas barreiras caíram e quantas casas desabaram diante do meu prédio, nem em que dia soubemos que estávamos em risco de desabamento, quando surgiu, lá por detrás da mata que caía, uma casa que nunca suspeitáramos existir, enorme mansão com uma piscina enorme, prontinha para cair sobre o meu prédio. O risco poderia ser de morte, e então urgia tomar uma decisão rápida: como minha sobrinha Anna Paula estava ao telefone, insistindo em que fôssemos para a casa dela antes que a tragédia piorasse, para lá seguimos. Vivemos bem lá, pois era possível recolher-se água dos beirais do telhado e chovia muito, e também sempre tivemos comida e energia elétrica. Ficamos foi sem telefone e Internet.

                                  

Tudo o que vocês viram na televisão foi verdade, se bem que penso que nunca se saberá a verdade inteira. Mas não há exagero no que a imprensa conta.

                                  

Ontem, depois de 10 dias, voltou a haver água nas torneiras do apartamento da minha mãe, e então ela voltou para casa com a Carmelita, sua acompanhante – e eu me mudei, junto com meu cachorro, para o depósito da Editora Hemisfério Sul. O espaço é bem pequeno, e não há chuveiro, mas comprei uma bacia de plástico onde posso lavar roupa e tomar banho. Há muitos amigos me convidando para ir para as suas casas e também poderia ir para a casa da minha mãe (vou esperar a Defesa Civil dizer quando poderei voltar para o meu apartamento), mas achei que ficaria melhor aqui, onde há um computador à minha disposição, e nas noites poderei ficar sozinha e em  calma, e escrever e estudar, e tirar tempo para passear com o meu cachorro. Na verdade, sinto-me mais ou menos como se estivesse em outro planeta, meio no mundo da lua, atordoada. Muitos amigos foram atingidos e/ou perderam suas casas, e, visualmente, Blumenau se me apresenta como uma grande ratoeira, onde a gente passa pelas ruas pensando em qual encosta vai desabar agora, e será que não será em cima da gente? Pois o perigo não passou e continua a haver deslizamentos. Em todo este tempo só vi televisão uma vez, que foi no domingo à noite, dia 30.11, um programa da Rede Record, e não achei nada exagerado o que lá apareceu – a imprensa não está mentindo, não.

                                  

Penso que se ficar aqui onde estou por alguns dias devo entrar nos eixos de novo, pois aqui somos apenas eu e meu cachorro, e é possível estar-se só e em silêncio, como tanto vinha sonhando. Como campista inveterada, não me é difícil me arranjar com poucas coisas num lugar pequeno – hoje pela manhã comprei uma lata de leite em pó, outra de farinha láctea, água mineral. Dá para se viver bem com tais coisas, e aqui perto há um pequeno restaurante onde costumo comer boa comida. Também temos uma padaria quase em frente – soube ontem que os padeiros estão dormindo nos fundos da padaria, pois também eles perderam as suas casas. Há outras opções de lugares para comer, e espero, aos poucos, ir localizando amigos que não sei onde estão e respondendo às mensagens que agora não consigo responder. Tenho um telefone, mas não tem secretária eletrônica. Nas tardes, está aqui também a Sandrinha.

                                  

E a vida segue, e fico pensando nas tantas pessoas que sei que batalharam tanto  ajudando as suas comunidades. Devem ser inúmeras – vou citar aqui dois amigos que já fizeram contato comigo: a Onice Sansonovicz e o José Roberto Severino, historiadores lá de Itajaí. São só exemplos – há todo um exército de formiguinhas batalhando além das suas forças, por aqui e por todo este Brasil, para que a gente possa tirar o pé do buraco de novo.

                                  

Digo-lhes que me parece bem difícil viver. Agradeço a solidariedade e a preocupação de cada um que fez contato comigo ou que se preocupou com a nossa gente combalida e estressada.

                                  

Muito carinho a todos vocês,

                                                                       Urda.


Blumenau, 28 de novembro de 2008.


Olá, gente querida!


Faz alguns dias que mandei uma outra mensagem coletiva – estava sem internet, e a levei gravada até um café cibernético – e meu provedortambém estava fora do ar – portanto, ela seguiu para muitos de vocês através do endereço eletrônico do rapaz que trabalha no café. Pedi que colocasse no assunto “da Urda” – não sei se chegaram a receber e/ou identificar.

Vou tentar resumir a situação como está hoje, para mim, aqui em Blumenau (porque para outros está MUITO pior – para alguns também está bem melhor).
 

Sei que hoje é sexta e que o pesadelo começou na outra sexta à noite.

Na manhã de sábado, muito cedo, fui resgatar a minha mãe do lugar onde ela mora, pois, à primeira vista, ela estaria melhor no meu apartamento,onde haveria facilidade de comunicação com o bairro adjacente, onde se poderia comprar água, comida, remédios.

Ninguém esperava, no entanto, tamanha tragédia, MUITO maior que as enchentes de 1983 e 1984. O blumenauense estava acostumado a enchentes onde perdia sofás e geladeiras – desta vez perderam-se as casas E os terrenos. Há barreiras por todos os lados, por toda a cidade, e a tragédia não poupou ricos nem pobres. O homem que me atendeu onde consegui comprar comida para o meu cachorro, faz uns três dias, contou-me que na rua dele (próximo à Dudalina, para quem é daqui da região) caíram mais de 100 casas – e a desgraça era tão grande que sequer a Defesa Civil ou alguma autoridade ficou sabendo. Aquele lugar só foi
descoberto depois que os helicópteros passaram a sobrevoar a região e viram o acontecido naquela rua. As notícias estão aí, nos jornais e televisões, e imagino que diversos de vocês para quem estou escrevendo
também foram atingidos de alguma forma.

Eu moro (morava) num privilegiado reduto da classe média, no centro da cidade, com uma floresta diante das minhas janelas. (Chico, mudei de endereço faz alguns anos) (Rosane, não sei como achar pistas da tua família – espero que esteja tudo bem aí contigo. Imagino que os teus estejam tão bem quanto possível, pois li a lista dos mortos no jornal e não tinha ninguém da tua gente.)
 

Voltando ao privilegiado reduto da classe média onde morava: ontem à tardinha arrisquei dar uma passada por lá, e impressão que se tem é que ali houve um bombardeio (as imagens andam circulando por aí – eu moravana Rua Hermann Huscher – dão as notícias falando o nome da rua).

 

Asimagens que circulam são horríveis, mas para o prédio onde moro, o mais horrível não está visível nas imagens – é uma enorme mansão que continua escondida por detrás da mata que não caiu com as barreiras, e que além de ser enorme, tem uma piscina enorme que está cheia dágua. Vi imagens aéreas dessa casa, hoje – a piscina continua lá cheia dágua, e penso que não há sequer como esvazia-la, pois a própria rua onde a casa fica veio abaixo (quase todas as casas daquela rua, que fica bem no alto, caíram sobre as casas mais abaixo, na minha antiga rua). Então há essa mansão com a piscina, e nenhuma segurança de que ela não deslize também – e se as demais casas que caíram fizeram-no sobre outras casas mais abaixo, e depois rolaram sobre a rua e estacionamento dos prédios fronteiriços, essa dita que está sendo o meu (nosso, dos outros moradores do meu condomínio também)  pesadelo, se vier abaixo, trará junto as árvores que ainda a escondem e cairá... exatamente sobre o meu condomínio, e penso que com tal força e impacto, que não haverá muito o que esperar – se a tal casa vier abaixo, penso que perderei meu
apartamento que é tão bonito e do qual gosto tanto.
 

Por enquanto, estou abrigada na casa da minha sobrinha Anna Paula e do David, com minha mãe e meu cachorro, e vai todos os dias brincar lá um menino de 10 anos, o Victor, que também perdeu a casa. Aliás, fica bastante difícil falar com alguém que não perdeu alguma coisa. Nesta manhã, fui dar uma volta com o meu cachorro, e numa ruazinha que não
tinha nenhuma barreira despencando, encontrei uma antiga conhecida de antigos acampamentos. A casa dela parecia perfeita, com jardim bem cuidado, cachorrinhos, etc. Disse-lhe como me sentia feliz por ver que ela na da perdera, mas ela me desenganou: perdera a cozinha e a área de serviço, numa barreira que não me ficava visível. O que vocês estão vendo de notícias por aí não é nada mentira, não.
 

Na casa da minha sobrinha não faltou água de chuva, colhida nos beirais do telhado, e nem eletricidade, embora tenhamos ficado sem internete telefone. O telefone ainda não voltou – meu provedor só voltou ao ar,parcamente, hoje, sexta, dia 28. Ontem à tardinha começou a voltar a haver água da rede em alguns lugares da cidade – no condomínio onde minha mãe mora, por exemplo, ainda não há o menor sinal de água potável, uma semana depois. Tivemos comida todo o tempo – na verdade,é bem grande o desabastecimento e nem sempre se consegue comprar o que se deseja, mas não passamos fome. Muitas pessoas, porém, estão passando fome de verdade – a situação ainda é crítica. Isto sem contar os que perderam os seus entes queridos, às vezes famílias inteiras (Mteka, o Feio, nosso primo , do Big Lanches Feio, também se foi. Morreu na terça, mas só ficamos sabendo na quinta. Quando vieres ao Brasil de novo, já não haverá o delicioso lanche do Feio.) (Para quem não conhecia o Feio, ele era até bem bonitão. Não sei de onde arranjou talapelido.)
 

Eu aqui faço planos para uma nova vida, caso perca mesmo o meu apartamento do qual gosto tanto. Estou programando uma vida com muita simplicidade, num lugar muito pequeno, onde haja um computador, livros, uma geladeira, um fogão, e um lugar onde possa dormir com meu cachorro Atahualpa. Imagino que tal lugar será numa região muito segura, mas o que é seguro atualmente? Andava dando tratos à bola sobre o que seria seguro,quando ontem tive a idéia que voltou a me reaquecer e a me animar: se perder meu apartamento, vou morar num trailler (não sei se está certo –não falo inglês e não sei uma palavra equivalente). Eu sempre sonhei morar num trailler – lembro de uma época, faz muitos anos, que existiauma filme sobre uma família que vivia num trailler – vi tal filme umasvinte vezes! E muitas vezes que passo na BR 101, lá em Biguaçu, onde há
uma venda de traillers, fico parando o carro e espiando os mesmos – acho que agora vai chegar a minha vez! 
 

Abraços, meus queridos! Espero que os tantos amigos que também foram atingidos por esta catástrofe acabem dando notícias.
Aqui, com muito carinho para todos,
Urda.


                                                                                                               ENCHENTE

Blumenau, acho que 25 de novembro de 2008.

 

 

 Oi, gente amiga!

 

 

                                  

Quem vos fala eh a flagelada Urda, para contar dos últimos acontecimentos. Não sei para quem eu contei o que, e então vou dar uma geral dos últimos dias. Estou usando um teclado que veio de um outro pais e uma conexão difícil ; portanto, perdoem;me as falhas.

                                  

 Andou chovendo cá por Blumenau durante meses, de setembro para cá a chuva recrudesceu, e agora, na noite de sexta; penso que  dia 21, o bicho pegou. Começaram a deslizar barreiras por todos os lados e o rio passou a subir ; a defesa civil deu a maior mancada, dizendo que na manha de sábado o rio estaria com 7 metros de altura, já que não chovia no alto vale, mas ainda na noite de sexta, pela meia noite, o rio chegou aos 7 metros, e ate agora não sei bem ate que altura o rio chegou, pois os acontecimentos se atropelaram e não conseguia acompanhar mais tudo o que estava acontecendo. 

                                 

 Sei que, em toda a região, encostas encharcadas deslizavam morros abaixo, e onde eu moro não era diferente. Já na tarde de sexta começou a deslizar o morro fronteiriço ao meu prédio, e fechou a rua uma primeira vez ; logo veio um trator e desobstruiu a rua.

                                  

Na manhã de sábado, bem cedinho, tive a lucidez de não esperar nem mais um instante para sair atrás da minha mãe e traze;la para o meu seguro apartamento com a acompanhante dela, a Rosita. Fui ate onde ela mora sem problemas ; quinze minutos depois, quando voltava, já quase não consegui mais passar, tamanhas as barreiras que estavam caindo pelo caminho, e também porque o rio se emparelhava com a cidade e já havia muitos pontos de alagamento. Como antiga blumenauense, sabia de antigas rotas que provavelmente ainda dariam passagem e as usei, e consegui chegar em casa.

                                  

Foi um dia de horror. Eu dizia para minha mãe de 87 anos ; Faz de conta que a mãe esta assistindo um filme de horror, dentro de um cinema.

                                  

Moro em Blumenau, na rua Hermann Huscher, num edifício de uma coleção de quatro, bem no começo da rua. Do outro lado da rua havia uma fila de casas de pessoas ricas ; bem no alto, acima de tais casas, havia uma rua chamada Epitácio Pessoa com diversas mansões ; e no decorrer do sábado e na noite de sábado tudo aquilo passou a ruir. Primeiro vieram abaixo as barreiras com arvores, depois tais barreiras passaram a cair sobre as casas de baixo, depois começaram a cair as casas de cima sobre as casas de baixo ; já me e difícil lembrar a ordem de cada coisa e cada horror que passamos. No domingo  e na segunda não caíram mais casas, mas esperávamos, a todo momento, que viesse abaixo uma casa bem la do alto, enorme, de concreto, de 3 pavimentos, que então arrasaria com 3 ou 4 casas que ainda restavam aqui em baixo, mas ate a manha de hoje, terca, aquela casa continua pendurada no barranco, embora tanta terra e lama tenha corrido de sob ela que as fundações estão visíveis. Passamos esses dois dias literalmente presos dentre duas barreiras que fechavam completamente a rua, com algo como 50 ou 100 m entre as duas ; estávamos tão isolados que já não havia necessidade de prender os cachorros ou fechar portas, pois sequer um ladrão conseguiria entrar ali. Ontem, segunda, aa tardinha, um trator conseguiu abrir um caminho que dava passagem em direção aa Garcia, e saimos  em busca de comida. Encontrei duas padarias abertas, ma com tais filas que não compensava esperar ; acabei comprando algumas coisas em um supermercado onde também se entrava depois de se esperar numa fila. Parecia que tudo acabaria se resolvendo, ate a manha de hoje, terça.

                                  

A Defesa Civil começou a alertar que o prédio onde moro estava em perigo, minha sobrinha Anna Paula fez a mesma coisa, e quando sai para dar uma voltinha na calcada com o meu cachorro, prestei atenção num os meus vizinhos que e engenheiro ; e só então, pela primeira vez , VI UMA ENORME MANSÃO totalmente escondida por arvores que ainda não tinha visto, bem em cima do morro, BEM NA FRENTE DO MEU PRÉDIO, e não há a menor segurança de que ela não venha a cair também. Apareceram naquele momento um funcionário da SAMAE e outro da Defesa Civil, que se juntaram ao engenheiro meu vizinho e outros moradores, e o diagnostico era um so> se duas casas penduradas no morro que esperávamos a queda desde sábado viessem abaixo, elas cairiam sobre as casas de baixo, depois sobre a rua, e provavelmente sobraria algum escombro para os jardins dos prédios vizinhos ; mas aquela casona escondida no meio do mato  ; sabia;se que, alem de tudo, tinha uma grande piscina cheia ; cairá diretamente sobre o prédio onde moro, trazendo junto um bocado de floresta de grandes árvores.

                                  

Não havia muito o que pensar ; em breve reunião com minha mãe e Rosita, resolvemos dar no pe, e 15 minutos depois saímos d casa e nos abrigamos na casa da minha sobrinha Anna Paula. Não sei quando alguma coisa voltará à normalidade.

                                  

Esta mensagem e só para deixar tranqüilos os amigos que não fazem idéia para onde sumi.

                                  

A gente se vê mais adiante.     

                                   Abração a todos,

 

                                                           Urda.                      

Urda Alice Klueger

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