Eu ia viajar para o Equador
e sabia que lá existe o famoso vulcão Chimborazzo. Animei-me para
vê-lo, pensando ser o único, e minha amiga Lucimar atiçou-me a
vontade de conhecer um vulcão, ao trazer-me uma revista com uma
reportagem sobre um microvulcão do Equador, vulcãozinho de 20 m de
altura, que expele lama sulfurosa. A foto desse vulcãozinho era
surpreendente: na sua cratera , muitos turistas banhavam-se na lama
sulfurosa.
Fui para o Equador, então. Para chegar lá, o avião fez uma escala em
Lima, no Peru. Viajávamos de Lima para Quito, lá por umas três da
tarde, quando o comandante do avião fez uso do alto-falante para
chamar a atenção dos passageiros para o fato de estarmos sobrevoando
o vulcão tal.
Olhei para baixo, e fiquei besta de espanto. Passávamos por cima de
um vulcão de tirar o fôlego, enorme montanha andina de boca aberta
para o céu, espetáculo de beleza ímpar. Caberia uma enorme cidade
dentro da cratera daquele vulcão que se desdobrava em imensas pontas
de pedra negra pelas suas beiradas colossais. Para nossa sorte, ele
não estava ativo: sua cratera parecia inocente, assim cheia de neve,
num lindíssimo contraste da neve branca com a rocha negra.
Pena que num instante o avião se afastou, mas eu me sentia poderosa:
vira um vulcãozão de verdade, voara por sobre ele, jamais esqueceria
a sua beleza colossal!
Depois de uns dias em
Quito, eu e minha amiga Lúcia viajamos para o norte do Equador. O
Equador é pequenininho: de Quito, viajamos duas horas de ônibus até
Ibarra, onde também ficamos por algum tempo, conhecendo a região. De
Ibarra, viajamos duas horas e meia até a fronteira com a Colômbia
-
ao todo, foram quatro horas e meia de ônibus até sairmos do Equador,
viajando por boas estradas asfaltadas, a uma velocidade regular. Nas
minhas contas, isto deve dar uma distância equivalente à distância
entre Blumenau e Curitiba, talvez um pouco menos.
O Equador é muito bonito e muito fértil. Uma gelada chuva, todas as
tardes, dentro daquele clima ameno, faz frutificar o solo até
altíssimas altitudes. Estávamos a uns 2.500 m acima do nível do mar,
mas sempre havia montanhas muito maiores, 1.000 ou 1.500 m acima de
onde estávamos. Eu viajava de ônibus observando a beleza doce
daquele país doce, as cidadezinhas lindas, as casas bonitinhas,
sempre rodeadas de campos de agricultura, e gostava de espiar os
campos cultivados que existiam atrás das casas, campos que
enveredavam pela montanha mais próxima até lá em cima, até onde a
neve começava, e, numa dessas, ao espiar a montanha lá em cima,
fiquei de queixo caído
-
aquela montanha quase no quintal da casa, não era uma montanha, mas
um vulcão!
Alguém vai perguntar como é que se reconhece um vulcão. É fácil.
Todas as outras montanhas, de uma forma ou de outra, tem o pico
arredondado -
os vulcões são montanhas sem pico
-
no lugar dele têm crateras. Não dá para confundir um vulcão com uma
montanha, fica logo evidente que um vulcão é um vulcão, igualzinho
àqueles dos quais a gente vê as fotos em livros de geografia.
Assim é o Equador. É lindo e doce, e tem uma paisagem serena, de
verdes suaves pontilhado do branco dos altos picos. Seu povo é suave
e doce, e faz lindas cidadezinhas e casas bonitinhas, e cultiva cada
pedacinho de terra, até a beirada da neve das montanhas. Seria um
país bonito igual a outros países bonitos, não fosse o mistério
escondido dos seus vulcões, que estão ali, latentes, no meio de toda
aquela gente suave e doce, e que dão ao país uma pulsação
misteriosa, uma conotação de perigo escondido, que cria a
possibilidade de possíveis erupções e nos deixa com o coração
apertado, pensando que, algum dia, aquela paisagem mais que bucólica
pode sumir debaixo de uma camada de lava.
Felizmente, todos os vulcões que vimos ao andarmos para o norte do
Equador, estavam quietos e serenos, e pareciam grandes sorvetes, na
abundância de neve que enchia as suas crateras. Combinavam
perfeitamente com a delícia que é aquele país doce. Mas, pergunto a
quem de nós, brasileiros acostumados a uma terra sem convulsões,
quereria ter um vulcão no quintal? Acho que morreríamos de medo. Há
que se ser equatoriano para se viver com tanta serenidade e doçura
aos pés de imensos vulcões.
Blumenau, 18 de fevereiro de 1997.
Urda Alice Klueger
Escritora, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR