Crônicas

Urda Alice Klueger


Zé Barbosa- O Anjão

                                   A impressão que ele me dava é que era um anjinho barroco que tivesse fugido de uma igreja baiana e crescido e engordado mais que um anjinho deveria, e ficado com aquela cara de anjinho apesar de ter virado um Anjão. Escondia bem as asas; a gente só via a jaqueta preta das Harley-Davidson que as tapava, e o conheci numa cidade lá perdida no mapa do Norte da Argentina, que se chamava Presidente Saenz Pena, numa tarde de domingo de 2004. Ele mais o amigo Azor tomavam cerveja numa mesinha de calçada, diante do hotel onde nossa turma que estava viajando de moto combinara com antecipação aquele encontro.

                                   No começo, aqueles dois novos companheiros eram apenas mais dois novos companheiros – havia uma fraterna amizade que unia o grupo, e cada novo que chegava à nossa comitiva para mim era inteiramente novo mesmo. As diferenciações viriam depois, e penso que já um dia ou dois depois o Zé Barbosa já se diferenciava dos demais – ficava arranjando brincadeiras consigo mesmo, descalço na pista, quando a gente parava, a se enrolar e a tropeçar nas suas roupas de couro de harleyro, com sua cara de anjo barroco que crescera demais se contendo para provocar o riso dos outros – era um anjão com alma de criança brincalhona, e por um dia ou dois estranhei o jeitão dele, mas depois entendi a sua forma engraçada de ser, e foi muito alegre e muito divertido viajar com ele no nosso grupo aqueles muitos milhares de quilômetros, até à mágica cidade de Cusco, no Peru, onde houve um encontro intercontinental de motociclismo. Com o Zé Barbosa a fazer as suas artes atravessamos o Chaco Argentino, o Deserto do Atacama, andamos pelas fímbrias do continente no lado do Pacífico, subimos, descemos e subimos de novo a grandiosidade da Cordilheira dos Andes – a gente nunca mais pode esquecer quem esteve junto em tamanha aventura! E então, quando esse alguém, além da aventura, tem asas de Anjão escondidas debaixo de uma jaqueta das Harley-Davidson, pega no sono dirigindo e faz todo o mundo rir, ele entra na alma da gente de uma forma especial, marca a gente daqueles jeitos que Saint-Exupéry[1] falava, quando dizia “que o essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração”.

                                               Eu nem sei muito bem como foi que o Zé Barbosa entrou tão forte no meu coração, mas sei que fiquei completamente desarvorada quando, neste março de 2006,  17 meses depois da nossa viagem, soube que ele assumira de vez o seu jeito de anjo. Numa curva, pilotando uma Harley, ele, de repente, desdobrara calmamente suas enormes asas de Anjão, e saíra voando em direção às estrelas. Penso que anjos, estrelas e nuvens combinam muito, mesmo quando se trata de anjões que parece que um dia fugiram de uma igreja, e então acho que o Zé Barbosa está se dando muito bem por lá.

                                               Estive acampando, faz poucos dias, e na noite escura fiquei a observar as estrelas. De repente, uma piscou para mim. Estou até agora achando que era o Zé Barbosa que estava a me observar de lá, em mais uma de suas brincadeiras inesperadas. Estava muito escuro, e não pude observar as asas, mas só podia ser ele!

                                               Boa viagem, meu amigo que virou anjo de verdade!

                                                           Blumenau, 22 de março de 2005.

                                                           Urda Alice Klueger

                                                           Escritora
 

[1] Antoine de Saint-Exupéry, filósofo francês da primeira metade do século XX – Nota da autora

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