
Poemas
Ana Luísa Peluso
A Passagem
13/01/2001
O
Racionalizar da Descoberta
O
Primeiro Canto Místico
Os
poemas também são feitos de mística. Num impulso de racionalizar um
sentimento, proponho-me a passar de uma condição à outra, o que faz
prevalecer na escrita...
Tudo
está parado.
Estagnado.
Num silêncio surdo,
A tapar-me os ouvidos.
Tudo
é quieto,
Como quieto é o medo.
Como o que contém segredo.
Como gelo.
Tudo
no quieto é sagrado.
É parado.
É ato morto.
Gesto inválido.
Gosto nenhum.
Sabor do nada.
O
calar é inexistir.
É findar.
Terminar, parar, fixar.
O
parar é estático,
É anti-elástico,
-permissão: move-lo -
O estático é imóvel.
Tanto quanto esse momento.
Isso
me dá coceiras,
Coceiras de verdade,
De pura ansiedade em fugir.
Sem palavras e estática,
- só me movo para coçar-me -
Retiro-me também,
em disparado...
Movimento
consciente
de liberdade!
p
a s s a g e
m
A
Liberdade de Escolha
O
Segundo Canto Místico
Em
certos momentos, onde o entendimento se faz ausente, só nos resta a
caminhada...
Na
hora da partida,
O gosto sempre é amaro.
Na hora dos dois sentidos:
Escolhido a contra-mão
Sinto-me despedindo de amor raro.
Mesmo
no encontro de vidas,
Vividas juntas,
O gesto: ato contínuo
Fez-se necessário,
Para me preservar, e a ti também.
E se fez a separação.
Hoje,
sabedor das verdades todas,
E eu sabedora da liberdade de escolha,
Fixo-me mais a você.
No
entendimento, outra passagem,
A passagem da ciência de existir.
Já percebemos, é claro,
Num inusitado e raro acontecido,
de estarmos de comum acordo.
Que jamais entenderemos certos fatos da vida.
Resta-nos seguir a viagem,
A
Caminhada.
p
a s s a g e
m
A
Jornada
O
Terceiro Canto Místico
la
pensée nous force à marcher...
Apenas
te restou isso, minha cara...
A caminhada!
Ou por ela anda, ou anda ela por ti.
Já que não escapas a andar por teus caminhos.
Se
autoritário for, de minha parte!
Peço desculpas em nome de todos:
Os culpados, pela tua caminhada.
Mas
de qualquer forma, me vale lembrar-te,
Que a única culpada de tua caminhada é você,
Pois sois mãe de teus passos, e se por um acaso,
Um de teus filhos saírem-te torto continuará sendo mãe.
Da mesma forma que é mãe de teus filhos sãos.
A
caminhada se faz necessária para que a passagem
Se complete...
É tudo que posso aliviar-te!
De
agora em diante segue o ofício,
O labor que é a próxima página...
Mesmo
que habitante do reino das ironias,
Dou-te rosas sem espinhos, pelo encontro!
E pelo vinho!...
p
a s s a g e
m
O
Labor Necessário
O
Quarto Canto Místico
la.bor
sm (lat labore)
Faina, lavor, trabalho. Pl: labores.
No
labor, o suor,
o correr, o querer, o lamentar...
A perda do ônibus, em dia de chuva.
Tempo adiado, vida passada,
Eis o labor.
No
labor, no entanto o amor!
Que por vezes corrói,
Se não correspondido.
Aí
estás o labor.
No
correr per voccare
No calor proclamado
No gesto de ardor: o labor
O labor de verdade,
É o labor por vontade,
e
por verdade é feito de amor.
p
a s s a g e
m
A
Colheita
O
Quinto Canto Místico
...é
momento de colheita; permirtir-se faz necessário.
E
após tantos caminhos,
adentrando a passagem,
que se faz densa,
- por isso necessária
de ser atravessada -
chega a colheita.
Após
a dor, a alegria...
Do pranto ao gozo das fêmeas
Que berram, como cabras
Em busca da felicidade.
Do
brusco ao leso,
do grito ao sorriso,
do arame à seda,
do verme à alma,
Também
o homem há de gozar...
O gozo do macho, porém homem,
mente, intelecto e coração.
Não apenas orgãos fálicos e falíveis.
E
a colheita se faz presente,
a busca se finda,
por se encontrar em si mesma.
A
busca e o motivo,
se fundem em um só
e minhas cestas,
cheias de frutas maduras,
fartam aos meus e aos teus.
E
de onde vieram tais frutas,
Existe um extenso frutagal
Lotado de todas as frutas,
que possam saciar teus desejos.
E assim sento, também aos meus...
Numa serena acolhida.
E
a
p a s s a g
e m
se fez...