Textos em Prosa

Ana Luísa Peluso

Crença
02.02.01

O estado de alma dos que crêem é bastante interessante. É uma espécie de calor eterno, de aconchego, de carinho.

É acreditar em tudo, quando tudo desapareceu por absoluta falta de crença de outros.

É esperar horas no ponto de ônibus, só para ter como chegar a quem se ama.

É buscar nas palavras, o instante imediato da criação.

É traçar rabiscos, acreditando ser arte.

É saber que os rabiscos são arte.

É encontrar nas esquinas, olhares desconhecidos, e simplesmente crer que eles possam ser sinceros, mesmo sem conhecer-lhes o dono.

É passar por debaixo das escadas da vida, sem medo de que algo ruim vá acontecer.

É esticar as mãos numa eterna acolhida, a quem quer que seja.

É ser qualquer pessoa, desde que essa pessoa seja você.

É achar que o mundo tem jeito, e que só não deu certo ainda, porque você não fez sua parte.

É buscar eternamente seus sonhos, por mais absurdos que lhe pareçam.

É estar com a alma aberta para o amor vão.

É acreditar que seu amigo nunca lhe invejaria, e mesmo que isso fosse possível, desejar-lhe paz eterna, por saber que a inveja é o inferno de algumas pessoas.

É perceber que seu vizinho gosta tanto do silêncio, quanto você, principalmente após as vinte e duas horas.

É entender que seu chefe possa estar irritado com a vida, e desculpar-lhe quando ele descontar suas frustrações em você.

É perceber que as pessoas precisam de estímulos e dizer-lhes de vez em quando: parabéns.

É entoar uma cantiga antiga, sem medo de parecer fora de moda.

É aceitar seus limites, sem sentir-se derrotado.

É entender que a vida costuma dar o que você precisa, não o que você deseja.

É desejar sempre.

É atentar-se para o fato de que alguém em algum lugar do mundo pode estar precisando justamente daquilo que te incomoda. Nem que sejam seus pensamentos.

É jantar com seu filho, sem obriga-lo a comer aquilo que certamente, na idade dele, você nunca comeria.

É acreditar em crianças. Principalmente naquelas que moram dentro de você.

É dar prazer a quem se ama.

É dividir o que possui, sem esperar o mesmo de ninguém.

É passar a tarde ouvindo John Lennon e lembrar que houve quem sonhasse.

É permitir-se sonhar.

É ler um poema e chorar, sem medo de parecer piegas.

É entender que nem sempre as pessoas vão estar dispostas àquilo que você planejou para elas.

É libertar as pessoas, por entender que posses são como feudos, e as pessoas não são terras.

É entregar uma rosa á um senhor e sorrir para ele.

É dar passagem para os afobados, por saber que se não proceder assim, eles podem ficar sem ar.

É entender que tudo é transitório e que a matéria é demasiado densa para entrar com você no eterno mundo imaterial.

É, antes de tudo, ser humano, não só pela condição, mas principalmente pela responsabilidade que isso acarreta.

É alçar vôos imaginários e mesmo que nunca saiam do plano das idéias, saber que você os acalentou.

É tentar eternamente aquilo que sua alma consagrou a você como vocação.

É atender ao chamado dela.

É acreditar sempre, para que a crença nunca morra.

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