
Textos em Prosa
Ana Luísa Peluso
Mapeiem
o Genoma Social
24/12/00
Hoje, ao deparar-me com o burburinho das lojas, à espera do Natal - sim o Natal há muito tempo, transformou-se em uma 'esperada espera' - notei que as pessoas apenas vêm o fato do ponto de vista que lhes interessa. Aquele ponto mais ou menos situado fora da razão, perto do orgulho e dentro da escravidão velada que as consome, sem que percebam.
Burburinhos de crianças pedindo, pais atendendo, vendedores sorrindo, outros nem tanto... O consumo tornou-se um fato consumado. Sem desvios e sem retorno. Apenas o é. E ponto. Isso me faz pensar que nossa sociedade pouco evoluiu no que diz respeito a se satisfazer plenamente, jamais saciando sua gula interminável pela ilusão de que objetos adquiridos a custa de seus suores são o objetivo. A fronteira final.
Sendo que, o que elas produzem para garantirem seu sustento e em algumas datas do ano, sua cobiça por possuir, deveria ser a Fronteira Final. Isso já não me incomoda, pois que nem todos estão conjugando o verbo 'vocare'1, o que faz deles vítimas frágeis para a grande 'confraria' do consumo.
De quem é a culpa? Do todo poderoso? Do governo? Da familía? Da igreja? Do Harry Porter? De Picasso, talvez? De proust? De Marx? Do genoma humano? Sabe lá...
O que sei eu, e digo que pouco sei, é que já não me entristece, pois que não serei eu a convencer o ser humano que comprar aparelhos eletrônicos não fará ele uma pessoa mais ou menos feliz. Talvez mais endividada. Apenas isso.
Enquanto isso do outro lado do mundo, Madonnas casam-se em Castelos Ingleses, com intelectuais ingleses, e passarão juntos a viver uma típica vida inglesa, quando nas favelas cariocas e nos singapuras paulistanos, meninos e meninas apenas sabem que é natal, porque alguns poucos de boa fé locomovem-se até lá, levando-lhes presentes.
Brincarão essas crianças? Terão elas tempo para tal lúdico exercício, ou será mais fácil encontra-las sorridentes, em frente ao seu automóvel, em um sinal qualquer de trânsito, a lhe pedir uns trocados em troca - já diz a palavra - de algum serviço prestado.
E quando abre o farol, elas se encostam como adultos que já viveram mil anos.
Tanto pela deformidade de suas posturas malandramente desconjuntadas, quanto pelo sorriso de quem já aprendeu erroneamente, que a vida talvez não mude mesmo, então, para que ser de outra forma?
Pensando seriamente: seria capaz essa criança de ainda sentir atração por um brinquedo? Ou por qualquer outra coisa que a mantenha justamente próxima daquilo que ela sonha e jamais terá...
Como escreveu Drummond,
"Mundo, mundo, vasto mundo...
Se me chamasse Raimundo,
seria uma rima,
não uma solução"
Mais um natal em que tudo continua, apenas por que tem de continuar. Poderes econômicos vorazes pagam a conta, no final das contas. Contas próprias. Nós continuamos apenas pagando o pato.
Se ainda costume fosse jantar pato no natal, ao menos, ele já estaria pago. Mas por tradição pequeno-burguesa, o costume continua sendo o perú. Elitizado, como toda tradição dessa espécie, mas tradição.
Se for pato, tem de ser com laranja. Coisa que o povo sequer sabe da exótica combinação. Povo até come pato, cozido, se faltar galinha. Mas a laranha mesmo, ele chupa. E o bagaço joga fora.
O que mais clamar a respeito da desigualdade nos países de terceiro mundo? Tudo já foi dito. Mas até quem pode dizer e diz, sabe lá no fundo que o império econômico é mais poderoso que Roma (a antiga), e que se o Imperador enfurecer-se, os leões estão na arena, à espera da carne.
Tanto faz mais ou menos um. Afinal de contas não são apenas vidas? O que é isso perto de negócios? Se você conhece o mundo dos negócios, que deveria chamar-se Império dos Sentidos, sem o intento de plágio do título, apenas a feliz coincidência das palavras, sabe extamente que a força que ele possui. E o rebanho que ele pastoreia, recicla-se todos os dias.
Amanhã nascerão mais. Mais alguns que, por sua vez, ocuparão espaços de outros que já partiram, dando continuidade na cadeia social processadora e psicológicamente insalubre.
Pena, muita pena. Que poucos entendam, que a arte da vida, não está em alimentar essa louca onda do preenchimento do vazio inerente ao estado de 'apenas homem' do ser humano. Quando nosso mitos forem desmascarados e dermos de cara com nós mesmos, aprenderemos. Principalmente, aprenderemos que o que buscamos naquela vitrine é a ilusão do que não descobrimos sermos capazes de ser, pelo simples motivo de não crermos na arte da vida.
E a estrada continua. Vai continuar. Até o dia em que não mais necessário seja tal aprendizado. Até porque já fomos canibais em outras eras, e hoje temos senão o peru, ao menos o pato, ou se preferir outra iguaria esteja à vontade, e não esquecendo: as laranjas.
Vamos, corram! Mapeiem o genoma social! Quem sabe nào poupamos tantas pesquisas antropológicas que até hoje apontaram apenas para o efeito, sem elucidar a causa, e muito menos trazer a solução.
Como disse Dna. Ruth Cardoso (antropóloga), ao responder a seguinte pergunta de uma repórter há mais ou menso uns cinco atrás:
- Miséria gera violência?
- Não.
Após ouvir - incrédula - essa entrevista, penso que o 'poder' é o estado mais infeliz que um ser humano pode atingir. Porque cega, cala, ensurdece e mutila. A todos, sem distinção. Até aos poderosos.
1 vocare, do Latim: chamamento; aquilo que chamamos de vocação