Contos

Ana Luísa Peluso

Zé Menino
Dez/2000

Zé Menino, o mulato, entrou pela porta adentro: o fato!

Mãe de Zezinho esticada, o susto nos rostos presentes.

Zé Menino escafedeu-se. Foi se esconder no armazém do tio de seu primo, porém nem seu tio, nem seu pai. Apenas tio de seu primo.

Quando o encontraram, dormia o sono dos conformados.

A mãe, o corpo jazia onde jazem todos os corpos, quando acabam sua jornada. E Zezinho perguntou:

- Cadê minha mãe?...

Como no interior daquela época psicologia infantil não existia, sequer psicologia ou conhecimento dela, o que teve Zé Menino, foi apenas o relato da morte de sua mãe.

Inconformado, escafedeu-se de novo. Por nove dias andou entre o matagal que circundava a fazenda, fazendo de conta que tudo era mentira e perguntando ao Criador, o porque de tanta ira sobre cabeças inocentes. Não obteve resposta. Apenas uma boa surra pelo sumiço. Já não lhe bastava a mãe morta?

Mas ninguém o ouviu. Justamente por isso apanhou. Já não bastava a mãe morta?

Zé Menino cresceu, casou, fez nove filhos, tal qual os nove dias que passou em meio ao mato. Dos nove, três estão vivos. Nunca os surrou. Sua mulher já se foi. Continua ele impávido, ereto em sua paciência de entender o por que das pessoas irem...

Nunca compreendeu.

Contam que faz moda de viola pra ver o tempo passar. De mulheres, basta as que teve. Do mato nunca saiu.

Quando contava vinte anos achou que havia entendido o porque da carne dura da morte, quando perdeu seu melhor amigo: o Brotoeja.

Chamavam-no assim, por ter a pele cheia de manchas arroxeadas. Também era cantador... Ele que ensinou Zé Menino a pegar na viola e segurar os trastes para que o som saísse. Ele que ensinou Zézinho a enamorar as moças da roça, com as cantigas extraídas do instrumento que ambos foram comprar na cidade grande. Uma aventura! Zé Menino e Brotoeja se perderam no caminho e quando chegaram à cidade, após caminhar muitos dias, estavam magros e imundos, porém felizes!

Zé Menino e Brotoeja eram que nem unha e carne. Se ficassem muito tempo longe, diziam que doía.

Brotoeja nem casou. não deu tempo. Seu corpo franzino foi encontrado no mato por dois dos empregados da casa-grande.

Ninguém sabe o que aconteceu. Quem faria tal horror?

Pobre do Zé, amigo assassinado.Saiu até no jornal da cidade vizinha, pois naquelas paragens, jornais eram coisas raras.

Hoje, Zé Menino não lê jornal, não senhor. Diz que dá arrepios e que lhe demora muito a leitura, pois não aprendeu ler de carreira...

Apenas faz moda de viola para as festas da roça.

Zé Menino é um fato. Uma vida que se ergueu sob a sombra das dores que nunca compreendeu.

Certa feita estava ele a puxar o cavalinho, quando as patas do animal lhe acertaram em cheio! Foi jogado do outro lado. Levantou-se, sacudiu as vestes e pediu desculpas ao pobre animal, por ter-lhe puxado com força. Dizem que o cavalo só não respondeu, porque não sabia falar. Mas de seus olhos, o brilho da compreensão apareceu.

Zé conta pra todo mundo!

Jura que é verdade de falar com os animais, o que ninguém duvida. Apenas a resposta dos bichinhos viraram chacota na vida do Zé... mas ele não liga, se ninguém acredita. Continua jurando que é verdade. Se a pessoa reclama, para de falar, apaga o pito, cata a viola e entra pra dentro de casa.

Pra desemburrar demora. Zé Menino é danado quando está nas avessas. Quando Maria Teresa, sua terceira filha, se casou, Zé não foi ao casório e a menina entrou com o tio do primo do Zé, que por essas alturas já estava mais ou menos naquela curva da vida, onde sequer se sabe quem está casando, e principalmente: com quem.

Mas foi assim mesmo. Entrou com a noiva chorosa no lugar do Zé, que por desafeto ao noivo, não quis ir ao casório. A cerimônia foi realizada, com o tio do primo do Zé, fazendo as vezes de pai, e lá pelas tantas, quando ninguém esperava mais surpresa alguma; barrigas satisfeitas, aparece Zé com a viola.

O genro podia ser tronxo, mas perder a festança da alegria do povo, enquanto tocava? Ah!. isso nunca!

E o Zé animou a festa até as quatro da matina. Não falou com o - agora - genro, mas cantou pra filha. E para todos os convivas que ali estavam. Foi uma alegria só. Alegria de gente simples, daquelas alegrias verdadeiras!

Dessa filha teve três netos. Um deles é doutor, o outros dois compraram um armazém e 'enricaram', como diz o Zé. Não esquecem do avô e no último natal lhe deram uma viola nova de presente! O Zé aceitou de bom grado, mas guarda na saleta de sua casa, pra mostrar pro povo, o presente. Continua tocando na velha, que já está traste os trastes, mas ele se vira, como é de seu feitio.

Numa outra vez, chamaram o Zé na cidade pra ele cantar no grêmio recreativo. Não aceitou não! Diz que é coisa de gente fina, e que os sapatos estavam demasiadamente velhos para fazer o bonito que gostaria.

O neto 'doutor' lhe comprou sapatos novos, mas nem assim Zé foi ao tal grêmio. Disse que os sapatos lhe doíam...

Outro dia Zé me disse, em bate-papo de cadeira na beira da porta de casa, que seria ser contador. Que se letrado fosse, ia contar sua história... mas como não era, queria que eu contasse.

Prometi à ele que o faria. Me fez escrever num papel e assinar, pois segundo ele, o tempo de homens de palavra se passaram há muito tempo...

E cá estou eu, começando aquilo que prometi.

Disse à ele que ia demorar pra colocar tudo no papel, por que a vida dele era muito rica. Ele não concordou. Ficou brabo! Disse que nasceu pobre e vai morrer pobre.

Tentei lhe explicar o que queria dizer, mas ele não se fez de rogado: jogou fora o pito, pôs a viola nas costas e entrou pra dentro de casa.

E ainda por cima, fechou-me as janelas na cara...

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