
Contos
Vânia Moreira Diniz
AMOR TARDIO
Luciana era um tipo especial. Não possuía uma beleza clássica, mas o charme era algo que existia realmente e ninguém poderia deixar de notar. Todos que se aproximavam eram conquistados pelo modo peculiar que era sua característica mais acentuada. A par disso, a extrema naturalidade ainda mais evidenciavam isso.
Estava se formando em Assistência Social e pretendia seguir a profissão que escolhera com afinco porque gostava do que estava fazendo. Mantinha um relacionamento sério com um psicólogo que conhecera quando ainda era garota e os dois pareciam realmente que se amavam bastante.
No dia do casamento a moça pensou que todos os sonhos de felicidade estavam se realizando e antevia um futuro glorioso. Tinham uma vida tranqüila e quem convivia com eles poderia assegurar o grau imenso de felicidades dos dois. Eram muito unidos e felizes. Tiveram três filhos e a vida parecia prosseguir tranqüila.
Quem conhecesse mais profundamente o rapaz notaria, entretanto um desassossego em seu modo de se conduzir. Era filho único e sempre teve uma necessidade de ser notado e querido. Ninguém poderia imaginar a insatisfação que provinha talvez de uma educação demasiadamente rígida.
Luciana vencia em sua profissão conseguindo destaques especiais e os filhos cresciam sem problemas mais sérios. Muitas vezes ultimamente a jovem notava como o marido era contraditório. Seu modo de se conduzir, suas manifestações estranhas de um temperamento difícil por vezes eufórico e outras vezes concentrado preocupavam a sua natureza tranqüila.
Marcos chegava em casa muita tarde, pois trabalhava num centro de estudos psicológicos à noite, porém a moça tinha sua própria vida e ocupações.
Naquele dia fora rude com um colega que tentava aproximar-se com outras intenções e lhe dissera que se afastasse definitivamente já que suas razões não coincidiam com as dela. E ele lhe respondera que ainda iria arrepender-se da dedicação ao marido:
- Ele não merece, dissera ele e Luciana impaciente pediu que ele não continuasse.
Muitas vezes essa frase lhe martelaria a cabeça, entretanto procurava afastar essa idéia. Observava Maurício, o rapaz que insistia tantas vezes em convencê-la do que dissera. Sabia que ele nutria por ela fortes sentimentos e não admitia isso de forma alguma. O colega era um bom rapaz e também tinha certeza que jamais lhe diria alguma coisa apenas a pretexto de prejudicar quem quer que fosse. Ele não conhecia Marcos completamente. Tinha se deixado levar por impressões. Só podia ser.
Começou a compreender que o marido ultimamente estava bastante estressado. Trabalhava demais e tentou convencê-lo a tirar férias ou pelo menos a descansar uns tempos. Teve uma discussão quando ele foi grosseiro e pareceu-lhe que o rapaz não se conformava com uma vida normal. Queria sempre mais como se tivesse dúvidas da própria capacidade.
Tentava sempre e cada vez mais trabalhar, criticando as pessoas e mostrando apenas um lado positivo de seu caráter para os outros e Luciana começou a perceber que ele não estava bem. Era ambíguo, vacilante e introvertido, embora quisesse demonstrar justamente o contrário.
Sempre mais vezes Marcos se afastava de todos que conhecia e se concentrava pelo menos aparentemente no trabalho.Nada o satisfazia. E Luciana começou a pensar que ele não mais a amava.
2ª PARTE
Maurício amava Luciana. Na verdade amara-a desde o primeiro dia que a vira. Era essa a sua impressão. Ela ainda não era casada e muitas vezes tentara demonstrar seus sentimentos de forma inútil já que ela fingia não se aperceber do que se passava. Entretanto sua revolta agora era muito grande, pois sabia o quanto Marcos enganava a moça. Mas não queria magoá-la. Isso seria demais para ele. Pensava num meio de abrir os olhos dela e não chegara a nenhuma conclusão.
Naquele dia resolvera sair para comer alguma coisa fora. Estava cansado e tenso. E ficou pálido de susto quando viu Marcos sentado ali naquele restaurante quase vazio com uma mulher e na verdade parecendo bastante interessado.
Propositalmente chegou perto cumprimentando-o e o marido de Luciana parecia desfigurado quando o viu. E desfigurado saiu precipitadamente acompanhado pela desconhecida.
No dia seguinte Maurício começou sua longa investigação e pode constatar o que já sabia há bastante tempo. A vida daquele homem era uma mentira. Não saía só com aquela moça que ele vira no restaurante, mas na verdade mantinha relacionamento com várias mulheres. Que fazer? Como agir?
Luciana ficou muito impressionada pela maneira como Marcos chegou em casa naquele dia. Estranho e abatido fez várias perguntas sobre seu trabalho e iniciou até uma discussão.
- Não suporto aquele pessoal que trabalha com você.
- E por que? Não entendo a razão desse assunto agora.
- E aquele cara, o tal de Maurício?
- Que tem o Maurício?
- Não gostaria de vê-la conversando com ele.
- Marcos, eu não estou entendendo. Está sentindo alguma coisa?
Ele ficou lívido;
- Por que? Pareço?
- Encerro essa discussão agora. Não quero brigar. Estou cansada.
Nada voltou a ser como antes e Luciana a cada dia sentia que aquele amor que ela supunha forte e indestrutível estava ameaçado.
Começou a notar quanto Maurício era diferente, mas jamais pensou em aceitar nenhuma de suas manifestações que já agora não eram freqüentes. Dedicou-se mais detidamente ao trabalho e aos filhos e Maurício via o quanto ela estava triste. Faria tudo para que não descobrisse toda a verdade.
CONCLUSÃO
Muitos anos se passaram e Luciana entendeu que a vida não era algo tão simples. Recebera muitas alusões à vida de seu marido, mas parece que não queria sofrer. Durante esse tempo Maurício lhe ajudara várias vezes. Sempre estava disponível. Algumas vezes até para levar os filhos ao hospital nos dias que não encontrava Marcos. E ela levemente comentou sobre a displicência do marido mas o colega dissuadiu-a de qualquer pensamento depressivo. Já quisera lhe contar tudo, mas a dor de vê-la sofrendo tirou-lhe qualquer idéia de faze-lo.
Foi num dia em que levantara com vontade de tentar qualquer coisa que pudesse tirar-lhe do marasma daquele casamento que decidiu procurar o marido no trabalho e convidá-lo a jantar em algum lugar para conversarem.
Aí ela viu efetivamente Marcos entrando no carro de uma moça e esperou. E então os observou durante alguns segundos segurando a respiração enquanto se beijavam. Ela observava. Ansiosa, admirou-se de sua reação. Nada sentira. Nada. Por que?
Não sentia vontade de chorar e parece até que um peso era tirado de seus ombros. Será que teria uma reação retardada? Que daqui a pouco começaria a sentir a dor que não se manifestara? Mas não. Estava normal. Andou um pouco procurando seu carro estacionado ali perto.
Dirigiu cautelosamente agradecendo a Deus por estar bem. Imaginava que deixara de amar o marido há muito tempo.Estava bem e normal. Agora estava bem.
Naquele mesmo dia saiu de casa e mudou-se para um apartamento que haviam comprado e que por sorte extraordinária estava desalugado e parcialmente mobiliado. Levou os filhos para casa de uma amiga, enquanto se organizava e quando Marcos chegou havia um recado seu. Pedia a separação inevitável.
Ele não se conformou. Prometeu fazer escândalo e sua mente destorcida sentia aquilo como uma rejeição insuportável.
Luciana não quis mais saber o que ele sentia. Pediu licença em seu trabalho e ficou vários dias tentando colocar sua vida em dia até que compreendeu; Maurício. Ele a ajudara. Ele a amara o tempo todo. Agora sabia: Ela também o amava e muito. E então só então teve medo que estivesse muito tarde e que o colega houvesse desistido.
Imaginou que o amasse há muitos anos desde que fora pela primeira vez desprezada. E quando estava pensando, raciocinando o telefone tocou insistente.
Era Maurício. Tivera sorte. Não era tarde. Talvez ainda pudesse demonstrar-lhe esse amor tão tardiamente descoberto.