
Ensaios
Vânia Moreira Diniz
Uma
das principais ocorrências que me impressionaram na vida desde muito pequena
foi a sensação (não apenas sensação) que as pessoas sentem diante de um
fato devastador como o próprio sofrimento e também e talvez principalmente
daqueles a quem amamos.
A
primeira vez que senti isso era muito criança e não sabia definir exatamente
suas conseqüências em minha alma. A reação foi uma angústia tão grande que
eu não conhecia nem sabia explicar. Uma dor que tomava conta de mim e que eu
sabia estar por dentro..
Muitas
vezes aconteceria isso de uma forma profunda, inusitada e que embora já tivesse
passado a conhecer me surpreendia. A certeza de que via alguém sofrer e não
podia dar um passo em sua defesa além do consolo que conforta, mas não
soluciona. E essa impotência em minha maneira de pensar levava-nos ao
desespero. Lenta, mas progressivamente.
Acredito
sinceramente em Deus e toda a sua magnitude, mas nesses momentos sinto-me
tendente a questionar-me profundamente à procura de uma explicação que seja
pelo menos plausível. Imagino a bondade infinita do Criador e mil vezes formulo
a mesma e incompreensível pergunta: Por que? Por que ocorrem nesse planeta fenômenos
tão estranhos como o sofrimento que nossa percepção não atinge e conclui
muitas vezes na morte sem solução? Por que não pudemos ajudar o nosso próximo?
Pó que essa impotência incompreensível e terrível que domina as pessoas como
um enorme dragão cujas armas não podemos refrear?
Inúmeras
vezes essa pergunta perturbou-me, levando-me a pensamentos inverossímeis e
terrivelmente desanimadores. Em diversas ocasiões presenciei ou tive
conhecimento de dores cuja solução nada poderia definir e me perguntava
dentro do mistério insondável de um pai-criador de que forma poderíamos
rezar. E de que forma continuaríamos a sentir a mesma inquebrantável fé.
Sei
que os desígnios de Deus estão além de nossa humilde compreensão, porém
isso não quer dizer que a angústia não se faça presente e dolorosa.
Aprendemos que o Deus é amor, generosidade, compreensão, magnitude, senhor
absoluto do perdão em todas as suas proporções. E no arrefecido entendimento
de nossas mentes não conseguimos uma resposta coerente e de certa forma
satisfatória para que possamos acalmar a ânsia de ter e presenciar sofrimentos
os mais diversos.
É
certo que a beleza do universo,
suas manifestações, as alegrias que também tomam conta de todos nós e que são
profundas e maravilhosas também nos reportam a Deus. E fico fascinada por esse
mistério sedutor da beleza de cada manifestação de energia que igualmente não
compreendemos, mas que, nos transborda de surpresas.
A
vida é em si surpreendente e extraordinariamente emocionante e nos extasia pela
vibração de cada momento, do sentimento em si, do riso contagiante, das lágrimas
de alívio, do amor efervescente e da paixão em todas as sua proporções. Essa
química espetacular aliada ao sentimento e restaurada nas manifestações as
mais diversas instintivas e profundas.
Mas
o que me ressinto de uma maneira mais profunda é sem dúvida a impotência de
situações que nos deixam amargurados em seu contexto. Ficar inútil diante de
dores e aflições. A impotência é descritível? Ela pode ser compreendida e
analisada?
Ou
nos leva a um precipício de conjecturas difíceis de retornar tal a sua
complexidade que é quase impossível emergir? É essa a pergunta que me faço
anos seguidos e que transmito a todos. Entretanto, sei que só continuaremos a
conviver com tudo isso se reiterarmos e frutificarmos nossa fé. E talvez eu
esteja precisando exercitar esse crédito. Exercendo-o, creio que chegarei de
leve aos meandros complicados de decisões divinas necessárias tentando
compreendê-las e poderei administrar a impotência dolorosa diante de uma evidência
a qual não podemos evitar.