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LOCUTOR 1 (Voz Aveludada) : “Ela é Linda”. LOCUTOR 2 (Idem em outro tom, insinuante) “Está noiva !” VOZ FEMININA (Sutilmente) “Usa Pond’s...” Ao olhar uma dessas vitrinas de lojas com cosméticos de todas as alquimias e países do mundo, ela se lembrou de modo intenso e emocionada daquele antigo e tão bem feito anúncio de rádio: “Ela é Linda. Está noiva. Usa Pond’s”. Desde pequena ameaçou ser linda, embora tenha florescido ali pelos quinze anos. Veio à memória a mãe que lhe dava figos com chantilly quando era magra, o quanto a vestia com capricho e a infância despreocupada dos anos 40-50 do século passado. Ficou a pensar se usara Pond’s, sempre foi ciosa de que a cada dia ficava mais bela a julgar pelo interesse da rapaziada. Como todas as moças de sua geração foi pilhada cedo para o casório e passou pelas transformações ocorridas depois dos anos 50, não poucas para um ser humano principalmente se mulher e linda: o existencialismo; o casamento com divórcio; o estudo universitário no lugar da clássica dona de casa; a evolução na educação de filhos; a psicanálise; as mudanças existenciais; o feminismo; a participação política; uma profissão; a separação; teorias sobre a libertação do corpo; o problema da liberdade sexual entre filhos adolescentes; a pílula; a contracultura; as teorias e terapias orientais; a mudança nos padrões de comportamento; a lei do divórcio, enfim era tanta coisa, que diante daquela vitrina ao lembrar-se do anúncio de Pond’s, ela se sentiu emocionada e feliz apesar de todas as lutas. “Quanta coisa, meu Deus” – pensou – “tive que enfrentar para conseguir a segurança e a lucidez de minha maturidade”. A palavra maturidade assustou-a brevemente pois lembrou o envelhecer, a mais difícil das tarefas existenciais para a mulher bonita. Beleza, afinal, é poder e toda perda de poder assusta. Ademais, a vida das mulheres belas consta também de uma perseguição incessante, ciúmes, assédios, até de amigos... Pensou então, algo nostálgica, na prisão da fidelidade, que não a machucava porque lhe era natural, mas em situações conflitivas trazidas por vezes pela beleza. Mas, mística que era, agradeceu a Deus o privilégio de ainda estar bonita, contemplou de novo aqueles moderníssimos cosméticos de contos de fada, e sem resistir, contemplou-se por um longo minuto numa parte espelhada ao canto da vitrina. Aí suspirou fundo, duas vezes, e entrou na loja com aquelas vozes interiores a insistir: “Ela é linda! Está noiva!... Usa Pond’s” 28-10-2004 |