MULHERES QUE AMO DE LONGE

             Estatística da Fundação Getúlio Vargas da semana passada, dá Copacabana com o maior número porcentual dentre as grandes cidades brasileiras de mulheres adultas que moram sós. Passa de 50% o número das damas sós (não quer dizer solitárias) deste famoso e especialíssimo bairro do Rio de Janeiro, que ostenta a mais bela praia que existe. Não é uma convocação (ou é?) aos paqueradores, aos solitários, viúvos e solteirões. Sim, pode ser. Tomara que seja, viva o amor em qualquer idade! É um retrato sociológico, uma revelação do que é a evolução de um bairro com o passar do tempo. E é uma convocação a cronistas e poetas.

 Anos 50 e 60 do século passado Copacabana é descoberta pela especulação imobiliária. Anos 70 e 80 já era uma catástrofe urbanística, edifícios aos milhares, colados um nos outros e a máxima exploração do custo do metro quadrado construído. Além disso, as vias de trânsito se tornaram avassaladoras. Criaram-se várias "Copacabanas". O Leme é uma Copacabana; o Bairro Peixoto é outra. Certas ruas transversais com bons e discretos apartamentos, árvores e silêncio noturno, eis outra face do bairro. Aquela área da Praça Cardeal Arcoverde e a subida da Marechal Mascarenhas forma outra Copacabana, com o metrô na porta. Isso sem falar na orla deslumbrante. Em compensação há uma Copacabana na Avenida que lhe tem o nome e que é decadente, barulhenta, poluída, idem a Barata Ribeiro. Copacabana não existe. Há, sim, "Copacabanas", um bairro fascinante onde se tem e se encontra de tudo. Um bairro que cresceu errado ficou pronto, parou de crescer e agora sedimenta as suas funções tornando-se um dos melhores da cidade e com preços muito mais em conta. Milagre brasileiro a cem metros da praia maravilha!

Mas o que quero é declarar o meu amor às mulheres sós de Copacabana! Não no sentido menor da palavra, mas expressar amor como sublimes carinho e admiração por elas. Lá estão as que optaram pelo “antes que só que mal acompanhada”; as que ficaram viúvas, milhares de aposentadas; estão as lutadoras solitárias num País ainda machista. Vivem felizes as que optaram por uma solidão respeitável e culta. Encontram-se também as amorosas, as sensuais que precisam de privacidade. Moram espécimes resistentes da antiga classe média remediada e digna, solitárias em apartamentos dos quais cuidam com esmero; há muitas professoras que ganham pouco e levam a vida honrada de trabalhadoras. Lá estão repúblicas de jovens estudantes, lá estão as que se prostituíram por causas acima das suas forças, lá estão mulheres poetas, as que amam os cães, os gatos, as que escutam o rádio que lhes faz companhia durante a noite e a madrugada. Moram pelo menos em paz as que se desencantaram das famílias, as rejeitadas, as esperançosas. E como há mulheres profunda e verdadeiramente religiosas em Copacabana! Lá estão até as que ainda fazem tricô ou tecem belos tapetes de lã colorida, as que sabem coar um café saboroso, as que conhecem a vizinhança, a receita exata do quindim ou da rabada, as tímidas de amores secretos. Lá está a que foi assaltada e agredida, a que perdeu o filho, a que se enfeita na esperança de ainda casar, a mocinha começando sua vida, bela como a tarde de maio e saborosa como uma fruta do conde. E lá ainda estão, sem badalação, muitos dos melhores restaurantes do Rio. Tem até crepe francês chocante, melhor que na França.

            Lá está, enfim a versão moderna da antiga mulher brasileira, que agora se faz independente, dona de seu corpo e de seu nariz. De sua vontade e capaz de decisões. Deus proteja as mulheres sós de Copacabana. Eu as amo cá de longe, com o simbolismo do respeito, da admiração e da solidariedade. Felizes ou sofridas elas são vencedoras.

 16-06-2005

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