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Hoje vou fazer uma crônica justa e injusta. Sacou? Injusta com a maioria do elenco de “Páginas da vida”, impecável e altamente qualificado. Não tem jeito. Dizem que temos jeito para futebol, samba e arquitetura. Meia verdade: o Brasil é também inesgotável fonte de bons atores e atrizes. Justa com Lílian Cabral por sentir que após muitos anos de trabalho talentoso, em Páginas da Vida soou a sua hora. Ela será sempre uma nova atriz depois dessa novela. Um crítico mal humorado e despeitado poderá dizer: “com um papel daqueles, um presentão do autor, até eu”. Mentira desse eventual crítico! Poderia ter ganhado o presente de uma personagem especial e não a desenvolver interior e exteriormente com tantos matizes de interpretação, com a vivência interna da crueza também possível ao ser humano, com o desempenho de uma grande atriz dramática, O trabalho dela seria destacado em qualquer país do mundo, pelo caleidoscópio de contradições que lhe agitavam o conturbado mundo interno. Há outro fato: é lindo ver-se qualquer profissional, levar anos a ralar até que um dia chegue a sua vez. É um momento sacramental como diria meu amigo Leonardo Boff. Uma presença do mistério retira um artista da linha mediana em repercussão (não em talento) e o coloca em lugar que internamente ele já conquistara em seu amadurecimento. Quantos atores da maior qualidade cá no Brasil e em outros países, levam décadas de trabalhos talentosos, contudo não vêem florescer a correspondência entre a sua arte e a opinião do público e da crítica!? Por isso o nunca desistir é uma verdade em arte. Nem todos florescem, mas entre os que o conseguem cada qual floresce numa fase de sua vida. Uns bem jovens, outros na idade madura, terceiros já perto da velhice. Viram a melhor atriz segundo o Oscar? A “Rainha”? Ela sempre foi ótima, mas somente agora a sua flor se abriu. À Lílian Cabral coube a rosa da consagração no ano de 2006 e nos começos de 2007. Atuação potente sem qualquer exagero. Força. Sentimentos adoecidos. Verdades próprias a desconhecer o universo emocional de quem a cercava. Risos nervosos. Crueldade patológica embrulhada em lógica implacável. Logo ela, a quem nos acostumamos ver em personagens leves, gostosos, humorísticos e é claro, também em papéis densos. Foi gigantesca, esta é a palavra justa. Agora Lilian encontrou o seu momento de flor. E um cronista que se preze não pode deixar passar esse momento mágico na vida de qualquer pessoa. Por isso, prefere ser algo injusto com o restante do impecável elenco e tomá-la pela mão trazendo-a à frente do palco para aplausos intermináveis. 01-03-2007 |