A Força Dos Jardins 

Passei semana passada pelo centenário Passeio Público ali na Lapa/Cinelândia e fiquei deslumbrado com a recuperação do mesmo pela Prefeitura. E a cidade nem toma conhecimento. Que pena! Pouca gente a apreciar a delícia que é um jardim como símbolo de ordenação consciente e racional das forças da natureza.

O jardim clássico, público ou privado, é o local do descanso, do passeio e da reflexão. Os jardins funcionam como parte externa da casa ou dos mosteiros, dentro da propriedade, porém. Psicologicamente, os jardins são a saída (ou a entrada) de dentro de si, como que para um auto-exame. É um externo que é interno. O ser humano precisa sair de suas trivialidades para, permanecendo em si mesmo, olhar-se, ver a própria casa. Sair para entrar.

O jardim está associado, portanto, a inúmeros aspectos interiores do ser humano. Na mitologia cristã, o jardim está associado ao Paraíso. O paraíso era o jardim do Éden. Essa ligação profunda da idéia de jardim à de Paraíso predispõe toda a cultura ocidental a situar, posteriormente, no jardim, as expectativas, as ante-salas, os frontispícios existenciais. Nos jardins, as amadas encontravam-se com os amados. Nos jardins, faziam-se confidências. Nos jardins elas e eles meditavam, conversavam com pássaros, com mensageiros alados ou humanos.

Assim como a selva e a floresta estão conotadas com o inconsciente, os jardins ligam-se ao controle e ao domínio da razão sobre os instintos. São, portanto, uma representação da capacidade humana de embelezar as suas relações com a natureza, embelezando-se, em contrapartida, pela recepção de tudo o que trazem os jardins de calma, perfume, ambiente propício, beleza, sombra, pássaros  e recolhimento.

Os orientais, principalmente os budistas zen, possuem diversa concepção dos jardins. Para eles, os jardins não são apenas locais de ordenar a natureza, disciplinando-a (como apreciam fazer os ocidentais: pôr tudo "em uso"). Mais que lugar do "utis" (de utilidade), os jardins orientais são o lugar do "frui" (de fruição). Há jardins orientais feitos apenas de areia e pedra. Mas, a forma pela qual a areia é ordenada, com sulcos, faz com que o sol provoque sombras diversas a cada hora do dia e a cada dia do ano. O oriental encontra formas variadas de vida na aparência inerme de areia e pedra, materiais mortos para o ocidental. Olhar para um jardim assim concebido, com ou sem flores, com ou sem plantas, pode ser um espetáculo de grande variedade: basta saber ver. Tais jardins são locais de meditação na eterna transformação e fluxo das coisas. Fruir, apenas fruir.

As grandes cidades, em suas construções, sepultaram o jardim de recolhimento, porque o espaço deixou de ser benefício comum e passou a representar um valor patrimonial. Que crime! Que insensatez da sociedade industrial! Bendito seja quem salva um jardim. Seja caseiro ou municipal.

20-04-2005

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