A Infância de Tom Jobim

A semana passada tributou homenagens justas e crescentes a Tom Jobim, pela passagem dos dez anos de sua morte. Aqui do meu canto de página, faço a minha. A primeira etapa da vida de Tom – e que tanto marcou sua sensibilidade – iria até a morte do pai, um homem bonito e complexo, que abandonou o lar. A próxima se inicia com o casamento de sua mãe, algum tempo depois, com Celso, um homem bondoso e grande amigo dele até morrer, a mudança da família, de Copacabana para Ipanema, e a fundação do Colégio Brasileiro de Almeida. Estava Tom Jobim, por essa época, com aproximadamente 8 anos. Eles foram viver na rua Sadock de Sá, 276 – recanto pequenino, mais próximo da Lagoa Rodrigo de Freitas que da praia.

Como também vivi na Ipanema dessa época, ouso uma breve descrição de aspectos daquele bairro de baixa classe média, recheado, contudo, de casas excelentes de famílias ricas e muitos terrenos baldios.Não acontecera ainda o boom de Copacabana. A Lagoa tinha areia em forma de pequenas praias, onde se poderiam encontrar pitangueiras e conchas. A pesca farta na Lagoa nem de longe faria prever a poluição de depois.

No mais, Ipanema era um bairro arborizado, com muitos flamboyants – existentes também na Lagoa – e, sobretudo, amendoeiras.Pontificavam duas praças até hoje existentes no bairro: a General Osório e a Nossa Senhora da Paz. Os jardins de cada uma eram diferentes – a Praça General Osório ainda não era sinuosa, possuía quatro canteiros retangulares, que permitiam grandes peladas de futebol. E a Nossa Senhora da Paz não era tão bonita como hoje. Colégios, poucos: o Fontainha, onde estudei, defronte à General Osório. Anos depois instalou-se, numa outra esquina da General Osório, o Colégio Mello e Souza feminino, nos anos 50. Havia o São Paulo, de frente para a praia, perto do Arpoador – lugar bem pouco freqüentado à época. Lembro-me ainda do Colégio Silva Mendes, entre a Farme de Amoedo e a Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, e que fechou nos anos 40. E, mais para os lados da Rua Nascimento Silva, brilhava o Brasileiro de Almeida, organizado pela família Brasileiro de Almeida, a família de Tom Jobim, depois Colégio Rio de Janeiro. Não nos esqueçamos de que esse Brasileiro de Almeida é um sobrenome auto-agregado no registro civil pelo avô de Tom Jobim, Azor, por razões patrióticas positivistas, como afirmação de brasilidade – então uma das teses de um nacionalismo crescente no final dos anos 30 e que se fortalece nos anos 40. Cinemas, três: o Ipanema, o Pirajá e o Astória, este no Bar Vinte.

Podem crer: Tudo isso influenciou o menino Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, que um dia cantou com Vinicius “Ipanema era só felicidade”... Amanhã prossigo.

14-12-2004

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