A Minha Copa Interior

E assim começou a Copa. Bonita abertura e neste momento a Alemanha faz o primeiro gol, logo ao início, contra a Costa Rica, que em seguida empata.

        Vivo as copas profundamente desde 1950 quando com 14 anos vi ao vivo no Maracanã a derrota do Brasil na final. Ali aprendi a perder. Por falar em 14, acompanhei fascinado o avanço da tecnologia da comunicação, durante 14 Copas: rádio, jornal, e TV crescendo aos poucos até o auge de hoje, por certo exagerado na cobertura.

         Porém se alguém me convidasse para ver a Copa no local, com tudo pago, diria muito obrigado e ficaria por aqui. Já não sei mais acompanhar o futebol sem a repetição das jogadas, o tira teima, a metragem dos chutes a gol e as lentes de aproximação para as jogadas duvidosas. Isso é insubstituível. E sem viajar dezenas de horas, fica mal acomodado em hotéis e no campo. Isso sem dizer que intestino e viagem são incompatíveis...

         Minha Copa, como os campeonatos hoje em dia são interiores. E olhem que adoro futebol, pois vejo jogos de todos os times com idêntico prazer mesmo os que não são do tricolor de coração. Sim, vivo a minha Copa interna. Nada de expansões, delírios, berros, foguetório e esperanças intransponíveis. Com a idade alguns pensamentos mais livres insistem em perguntar: Se ganhar, além da alegria, algo vai mudar no Brasil por causa disso? E se perder? Idem: nada mudará. E eu sonho com um Brasil que precisa mudar profundamente. Como me disse o filósofo Leandro Konder, há dois dias: “É.... o passado está custando a passar...”

         Na minha idade ganha-se um sentido das coisas no qual o entretenimento alegra e distrai. Porém s sociedade do espetáculo a tudo tritura e transforma. E além do “Fantástico, o show da vida” é o show da morte que diariamente desfila diante de nós

         Não pensem que estou deprimido ou sou estraga prazeres. Estarei ali sentadinho torcendo – e muito - pelo Brasil. Em silêncio, sem cervejadas nem euforias delirantes. Mas principalmente porque a vitória no esporte pode estimular a auto-estima nacional e assim o País poder um dia se orgulhar de sua organização educacional, da formação de capital humano, de saúde repatida de modo para todos, pelo fim das causas dessa violência desenfreada onde até escolas são metralhadas.

Esta é a minha Copa interior que a Copa lá de fora apenas simboliza e é a manifestação extrovertida do amor interno e dolorido por este País com vontade de superar este momento tão doloroso de corrupção, incompetência e mais de 50 mil homicídios por ano e outro tanto de mortos na violência do trânsito e das estradas.

Um país em guerra interna. Cruel e absurda.

09-06-2006

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