A Morte E A Repórter

A televisão está a se transformar, a cada dia, em emocionante testemunho das dores e alegrias contemporâneas. Ao mesmo tempo que a tudo iguala quando condensa e homogeneiza o seu produto, ela é capaz de estimular a empatia em alta dose, entrando pelo sentimento, prolongando-se na afinidade com milhões.

O Brasil e o mundo acompanharam com dor, tristeza, comunhão, de diversos modos, enfim, a morte do Papa João Paulo II. Meio à dor e  sensações de saudade, admiração, descoberta do que é o valor de uma vida, estamos a poder  constatar o quanto a televisão pode nos levar a uma vivência comum (comunidade de multidões) que, sem ela, seria diferente. São passos na direção de uma integração mundial gradativa. Ali pulsa um tipo de vivência dorida que, sem a televisão, as pessoas não teriam assimilado do mesmo modo, por mais que sentissem, como sentiram, a morte de um homem admirável.

Este jornal possui uma ótima equipe de críticos de televisão. A eles cabe  analisar as características da cobertura dos canais. Falo apenas como um cronista do cotidiano a acompanhar o acontecimento pela TV. E, por isso, sem qualquer juízo técnico, mas como cidadão, tenho que cumprimentar a Rede Globo pela cobertura magnífica, respeitosa, excelentes repórteres imediatamente distribuídos por várias partes do mundo, tanto os da TV Globo como os e as da Globo News.

Desse magnífico e indormido trabalho, impressiona-me. a repórter Ilze Scamparini. Não que seja “melhor” que seus colegas de profissão, mas por haver sido subjetivamente diferente e isso muito antes até da morte do Papa. Sinceramente, ela, naquela luz suave de março/abril na Itália, parecia uma santa, não apenas pela bela imagem de natural bondade, mas também e sobretudo por sua voz e dicção. Numa televisão onde tanto se grita, aprecio duas mulheres que falam de modo suave, elegante, sem afetação e tornam as suas falas fascinantes: A Mônica Waldwogel da TV do Silvio Santos. E a Ilze Scamparini, da Rede Globo

Objetiva, recatada, uma postura respeitosa; pela voz serena, solidária e acariciante, pelo conhecimento que tem da Itália e do Vaticano, pelas sínteses precisas nas quais usa o idioma de modo impecável e nos transmite bondade natural, Ilze Scamparini, com seu ar de quadro da Renascença, tem sido um alento nesses dias de dor pela perda (e esperança pela descoberta) de um ser humano excepcional.+--+

 07-04-2005 

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