A Mulher Casada E A Aliança

No Brasil há um preconceito contra o trabalho manual. Parece só se valorizar o trabalho intelectual. Em países mais maduros o trabalho vale pela utilidade e por ser trabalho.

O meu trabalho por ser intelectual não é mais importante para a sociedade que o do lixeiro ou o da enfermeira que passa noites em claro no afã de salvar vidas. Você passa dez dias sem me ler. Mas não os passa cheio de lixo... O trabalho manual é injustamente desvalorizado. O item 32, do art. 7º da Constituição de 1988 (no qual coloquei minha pedrinha como redator) garante que no futuro novas leis sociais consigam duas vitórias formidáveis para nosso povo: 1) Não haver grande diferença na consideração da importância dos vários tipos de trabalho; 2) Fazer com que os salários mais baixos não sejam tão distanciados dos mais altos. Uma certa diferença precisa haver até como estímulo ao estudo e à especialização. Não é possível, todavia, haver pessoas ganhando milhões e outras tostões.

O trabalho da empregada doméstica - bem feito - é dos mais difíceis da moderna sociedade industrial e tecnológica. Feito dentro da casa dos outros, exige: honestidade à toda prova; discrição e saber guardar e respeitar o que assiste da intimidade alheia; acordar muito cedo e dormir muito tarde; saber desempenhar difíceis tarefas aparentemente fáceis. Cozinhar é uma delas: técnica e arte cada vez mais intrincadas. Não é fácil cozinhar para pessoas de gostos e hábitos alimentares diferentes. No mundo moderno então, com essa mania de regimes, cada habitante da casa come de um jeito.

Em muitos casos as empregadas tratam de crianças e adolescentes, pois na sociedade de hoje pai e mãe, em geral, trabalham fora. E mais zelar pela segurança da casa sabendo administrar recados, pessoas que tocam a campanhia, bicões, vendedores, cobradores, pilantras e gente séria.

Há duas outras atividades das empregadas domésticas que são muito pouco reconhecidas: fazer compras e arrumar a casa. Comprar é uma técnica complexa. Poucas donas-de-casa, inclusive, sabem comprar a fruta de ocasião, em bom estado e por preço razoável. Poucas conseguem não ser enganadas pelo peixeiro e pelo açougueiro. À boa empregada ninguém engana.

Arrumar é outra técnica difícil e complicada pois cada pessoa quer os seus cômodos de maneira própria. Em suma, a empregada é a heroína anônima do lar brasileiro.

09-04-2007

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