A Mulher Muito Bonita

Ninguém é natural diante de uma linda mulher, já repararam? É como homem de carisma: raros conseguem naturalidade diante dele. Os lindos sofrem os problemas da felicidade. Não é fácil passar a vida inteira ganhando amores que se não        querem, elogios de que se não precisa (a ponto de com eles se acostumar, e não mais poder viver sem eles). Esta é a sina dolorosa da felicidade da beleza.

Quando a linda mulher se aproxima, todos se põem em guarda, ninguém é o mesmo, até o assunto muda. O ar chega a paralisar-se: inveja, paixão, medo, hostilidade, admiração, temor, comparações, reverência, ciúmes alucinantes, deslumbramento. Todos respiram diferente e não conversam: tratam de se recuperar do susto! A mulher bonita desenvolveu a capacidade de olhar para todos os lados, sem fixar nenhum. Não pode. Um segundo de vacilação e todos confundirão suas intenções, supondo reciprocidade de atração, onde há naturalidade ou curiosidade. É um paradoxo.

A vida de uma linda mulher é a história de confusões sobre suas intenções. Nunca se lhe adivinham os verdadeiros tesouros e vivem todos à espera de uma dádiva. Ela desenvolve, então, a misteriosa capacidade de se aperceber do que lhe vai em volta, sem ter que olhar.

Como um cego, movimenta-se por percepções. Não pode olhar. E, se o fizer, deve fingir que não viu. Vê tudo, porém. Vê? Não! Sabe, sente. Não é fácil viver assim! Onde for, com quem falar ou que fizer, sempre, em todos os lugares, sem descanso, dia e noite, estará sendo procurada, "cantada", seduzida. Ou caluniada.

A beleza, de certa forma, acomoda-se aos sistemas. Símbolo do bom, superior, luxuoso, a beleza acaba em mãos das classes dominantes até porque estas puderam se aprimorar, têm bom gosto, precisam “exibir” o belo, dentro do padrão (burguês) de valor estético. A mulher linda acaba por se proteger junto ao poder, que a envolve a ponto de impedir-lhe as próprias buscas.

A mulher linda sofre diferente. Não é marginal ao poder. Vive no centro dele - envidraçada. Foi (es)colhida e nem sempre tem como se libertar. Sofre, por jamais merecer espontaneidade e por temer conseguir as coisas por causa da beleza e não dos méritos tantas vezes existentes.

É-lhe negado, até, o reconhecimento mínimo de ser inteligente, sensível, ter valor próprio, saber fazer as coisas. Não lhe é perdoado o mínimo desvio. Estão todos na espreita, a cobrar-lhe um preço existencial a mais pelo pecado e pela ofensa de ser acima da média.

Mesmo assim, sofrendo o que só ela sabe, perguntem-lhe se prefere ser menos linda?!!!

24-09-2005

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