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A MULHER, O AMOR, A LIVRE ESCOLHA
O grande triunfo da independência é o de poder escolher. O esmagamento de séculos levou a mulher a ser sempre escolhida. Em casos mais graves, a supor que se adaptava; a convencer-se de que amava. Essa dependência absoluta marcava de sofrimento e dor os atos do amor. Talvez até se considerasse amor tudo o que causasse sofrimento para fazer. A capacidade de sofrer parecia ser relacionada à grandeza de amar. Mesmo quando a mulher supunha escolher o ser amado, ela estava sendo escolhida. Havia razões de classe social, de submissão a gostos médios impostos pela própria cultura, pela necessidade de amparo, de segurança, de futuro para ela e os filhos, de companhia na velhice, e assim. Já o sistema a escolhia para aquelas tarefas necessárias à estabilidade dele (sistema) e dos homens (seus titulares), fazendo-a suportar a barra doméstica, espécie de refúgio do guerreiro, em vez de seu lugar de felicidade. Serva-sacerdotisa desse refúgio, a mulher era escolhida pelo poder dominante que precisava dela nessas funções. A rigor, portanto, não era dado à mulher escolher. Nem no amor. Acabava deixando-se escolher por quem "era melhor" para ela. A independência é sempre penosa, machucante e difícil. Mas ela tem uma única e maravilhosa vantagem: dá o direito de escolher. Escolher a própria vida, os rumos a tomar, a ética, o lugar para morar, as roupas, os amigos e acima de tudo o amor. Escolher o amor é encontrar e descobrir quem é para nós e não quem é ótima pessoa, ótimo marido, amante ou namorado; ou ótima esposa, amante ou namorada. Escolher é ter essa rara oportunidade de saber a hora do amor, ainda que pareça tarde. Escolher é exercer a independência em nome da qual serão aceitas todas as dependências aderentes às relações. O amor só emerge quando há liberdade suficiente para a independência, ou coragem de enfrentar a falta de liberdade envolvente (cultura, econômica, política) no sentido de buscar as suas opções fora das imposições diretas ou disfarçadas de todos esses mecanismos de poder. O amor só floresce quando se pode escolher e ser escolhido(a) num só e misterioso ato que não se explica nem conceitua, mas é claríssimo nas raras vezes em que se torna evidente. 03-03-2008 |