|
|
|
Patrícia é mulher moderna e corajosa. Professora que ama a profissão. Ganha mal. Vai de ônibus. Mãe de três filhos. Mulher de um marido desinteressado dela. Só sexo e em raras vezes . Ele tem algo de ejaculação precoce, parece um boi. Nada obstante é olhada pelos homens. Salta perto do colégio e dia desses viu o cadáver de um motorista que passava do outro lado e levou a bala perdida no meio da cabeça. Acompanhou a desmaiar a retirada do corpo e a sangueira. Entrou no colégio com taquicardia. Sua turma de adolescentes se contava com dez por cento de alunos interessados era muito. Fingia não ver até algumas eventuais masturbações na sala de aula. Compreendia-lhes a infância miserável. A maioria não conhecia o pai. Há certos homens monstruosos, pensava. Como é possível desinteressar-se de um filho? Esfalfava-se para ensinar algo além do currículo e que para si mesma não sabia se chamava de humanismo ou espiritualidade. Resolveu que o conceito dava no mesmo. Quase sempre saia derrotada em seu afã. Em geral, Patrícia calava-se quando ouvia discussão ou briga. Mas também conciliava com energia. E tinha pena dos dois. Jamais sentira ódio de alguém. Porém isso sentia pelo Bush. Chamava-o de genocida. Isso fora da aula, na sala dos professores. Voltava muito cansada para casa, a tempo de cuidar dos três filhos já grandinhos. Mas os ensinara a fazer as coisas com senso de responsabilidade. Nisso era feliz. Os pés sempre a merecer água morna ao fim do dia. Vinha de pé no ônibus. O coletivo da linha de que se valia, a única em bairro de subúrbio, já fora assaltado duas vezes com ela dentro. Além de todas as outras. Para distrair ligava a televisão e sua única folga era a novela das seis. Adorou “A Força de um Desejo”. Vontade de ter vivido no final do século 19. Em silêncio, admirava Dom Pedro II. Há seis meses chorava durante os noticiários. O marido dizia: parece boba. Da política tomara horror. Culta, conhecia os problemas do Oriente Médio. Chorava pelos palestinos sem pátria e pelos judeus. Deplorava a direita e o fundamentalismo de parte de ambos. Ver o Iraque agora e pensar na infância, quando se deliciou no cinema com “O Ladrão de Bagdá”, era uma fonte de suspiros. Na noite em que viu as torturas feitas pelos americanos a presos políticos, vomitou até de madrugada. Apesar de belas, suas olheiras aumentaram nos últimos dois anos. Ultimamente tem estado calada. Só solta a língua à noite, quando acompanha os filhos, até que cada um adormeça, os três no mesmo quarto, abraçados a ela. Com eles fala, fala, segue a pregar o humanismo. Ora com eles. São seus verdadeiros alunos. Quando não o faz, sofre de insônia. Ou tem pesadelos com crianças prostituídas aos treze anos. Ao longe, ouve quase todas as noites, o matraquear do som das metralhadoras, 25-03-2006 |