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Quatro horas da manhã e dezenove minutos! Hoje já é amanhã. A vizinha
doida só agora vai dormir. Para acordar feliz da vida às seis. Ela é amável,
jamais se viu em sua casa de viúva algo ou alguém além dos filhos, os
alegres e poucos netos e bem comportados visitantes com cara de professor.
Mas para os vizinhos ela é doida. Às vezes, de madrugada, ouvem
sua risada gostosa, a saltar, janela aberta afora. De que tanto se ri
sozinha? “Quem ri sozinho ou fala
sozinho é maluco”, diz um bancário aposentado e apoquentado
morador há dois mil anos da localidade, vizinho invejoso dela na saborosa
cidade do interior que ela escolheu para viver (inconscientemente ele
queria se casar com ela).
De repente, durante o dia, sai e volta à noite, dirigindo o carro.
Fala com todos a sorrir e ao mesmo tempo mantendo-os a quilômetros de
distância. Às vezes é vista no jardim a conversar horas com o velho e
lento jardineiro a quem jamais demitirá e dá pequenos agudos de soprano
se descobre um ninho de pardais ou nos dias em que uma flor começa a se
abrir. E mesmo quando o jardineiro não está, outro sinal de loucura: é
vista a conversar com as plantas. Vizinhos
abelhudos já pesquisaram com as duas empregadas da casa e com o
jardineiro. “-Que louca nada, Dona
Lina gosta muito de trabalhar à noite e é muito boa patroa”. “-Mas
nunca ouviram ela falando sozinha? “-Olha, falando, só umas poucas
vezes, mas quando dá umas gargalhadas elas são tão gostosas que até a
gente também ri no quarto, antes de dormir. Ela fica naquele computador
até de manhã, escreve, escreve, ouve música, vê televisão, tudo ao
mesmo tempo. E não se atrapalha: parece uma criança brincando, feliz.
Como é que ela consegue prestar atenção nas três coisas ao mesmo tempo
eu não sei. Mas ela presta. Só se isso é doidice. Fora daí ela ajuda
na cozinha, sabe cada prato, os filhos adoram ela, ela senta no chão e
corre e salta feito cabritinho pra brincar com os netos, uma alegria só.
E olha que ela já passou dos
sessenta” dizia Ernesta, a empregada de anos, que a adorava e não
entendia porque a achavam maluca.
Lá está a vizinha a rir gostoso. Condensou o sofrimento, a
viuvez, injustiças na escola de onde se aposentou, mas alguém que
descobriu o quanto a sozinhez bem vivida não é solidão. Hábil no
computador, é comunicação com o mundo inteiro, com poucos e
maravilhosos correspondentes, é incentivo a poetas novos, é carta para
os jornais, é colocar em ordem poemas e escritos de amigos ocultos pelo
virtual da Internet, uma espécie de santa eletrônica, que conhece
literatura e o idioma, corrige textos alheios sem nada pedir em troca,
aberta a qualquer forma de conhecimento, mística e realista ao mesmo
tempo, desligada de qualquer forma de poder, cheia de um enorme amor geral
e particular, grata pelo milagre de viver, e terapeuta da alta estima
contra a depressão que medra
junto aos correspondentes da
Internet, desconhecidos, porém íntimos dela com seu raio x misterioso
que lhe permite adivinhar futuros acontecimentos e a socorrer no momento
certo com a palavra necessária. Sim ela é doida: a primeira santa da
Internet. Uma santa feliz por dentro, saída do cerne das dores naturais
da existência. 18-11-2004 |