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O que torna difícil e
enigmática a relação amorosa é o fato de se sustentar em três pilares
que, se não são opostos, também não são equilibrados nem harmônicos.
Diferentemente dos poderes da República, que devem ser independentes e
harmoniosos entre si, no amor, e, principalmente, na paixão, eles são
dependentes e desarmoniosos entre si: refiro-me ao tripé indispensável,
mas eternamente instável: afetividade, sensualidade e segurança. É tema
para um livro e muitos estudos, pois esses elementos vivem entrelaçados
como os cipós de florestas fechadas. · AFETIVIDADE: esta inclui a afinidade, o sentimento dominante, condição fundamental do relacionamento amoroso. A afetividade está sempre presente no lado mais carente de todos nós: o lado carência, infância, dependência, necessitado de afeto e compreensão. É variada e deslumbrante em seus disfarces. Ora é carinho, ora é paciência e atenção, ora é capacidade de calar discordâncias, ora é fingir que não vê. É o elemento que melhor se dá com os outros dois. Mas, sem a segurança, torna-se inócua, e, sem a sensualidade, se torna tênue, embora possa operar prodígios de resistência em uniões nas quais sensualidade e segurança estão ameaçadas. Afeto é cimento. Está mais perto da alma que do corpo. · SENSUALIDADE: é inimiga da segurança e auto-eximida de afetividade, embora só funcione a favor da relação amorosa, quando entrosada com as mesmas. Contraditória, pois. Mas é assim. É o pólo subversivo, talvez terrorista, e o que mais ameaça as relações estáveis (ou ditas estáveis). É assim desalmada, mas é indispensável na relação. Daí a sua contundente contradição. Ela é, por definição, inquieta, exigente, inesgotável, resiste com dificuldade a cansaços e desencantos. No caso de não se dirigir apenas ao objeto amado, exige variedade, cede a vaidades, é carente e aceita qualquer estímulo novo. É um dos elementos complexos e misteriosos da relação amorosa, principalmente porque levou milênios disfarçando-se para poder sobreviver em sociedades que a condenaram, condenam e temem exatamente por seu caráter desintegrador e, paradoxalmente, pela forte e insuperável e enorme dose de prazer que assegura. Que pena, o espaço acabou. |