ALTAMIRO OITENTÃO

            A flauta flauteia, porém não falta. “Flautamiro” jamais descarrila. Já o Altamiro, Carrilho. Vive na flauta? Não! A flauta vive nele, desde menino. Ela  o escolheu para escravo, sem saber que era poeta, e fez do som alguns dos versos mais bonitos da música do Brasil. Nada lhe “flauta”: alegria, talento, saúde, disposição, condições física para aquele sopro divino, ora alegre como a passarada, ou nostálgico como a saudade. Altamiro é masculino de alta mira. Altamira, lugar sempre superior de onde se descortina o vale, o campo, as demais montanhas. O som de sua flauta percorre céus e terras, as brasileiras, inteiras, e muito mundo afora, onde é considerado dos maiores flautistas do século XX.

            Altamiro fez “oitentanos” em fins de 2004, durante os quais produziu oito milhões de notas em mais de sessenta de profissão. Levou alegria aos telespectadores antigos, com a Bandinha do Altamiro,  prazer dos telespectadores nos quase esquecidos sábados da já saudosa TV TUPI. Solou, acompanhou, fez arranjos, compôs, orientou, gravou  em fitas  cursos vários de flauta, tocou em regionais, teve o sol de seu som,  teve o sul, teve o centro, teve o norte, o nordeste e o centro-oeste na sonoridade variada de sua flauta, do seu flautim e flauta de lata da infância. Tem irmão flautista e sobrinhos músicos de primeira.

            Do meio da sonoridade média emerge um som agudo, mas doce: é a flauta do Altamiro. De ninguém fala mal. Incentiva colegas, ajuda os novos, conhece gerações de gêneros, estilos e intérpretes em sessenta anos de carreira. Ganhou uma linda homenagem da Rádio MEC semana passada, à qual, entristecido, não pude comparecer. Só deu para ouvir de casa, emocionado... Altamiro é sabiá, é “syrinx”, é pã, é “calamus”, é “siringa araucana”, “siringa monocálamos” no Egito, é “sódina” em Madagascar, é sanhaço, coleiro, cambaxirra e colibri. Altamiro é o Mozart da flauta, espírito e inocência de alma na cultura adulta. Altamiro é Brasil dos músicos anônimos do interior; das esquinas boêmias; dos bailaricos; dos forrós; das festas de formatura de antigamente, a moçada de smoking; dos músicos clássicos dos grandes concertos. Buliçoso no choro, sentimental nas valsas,  virtuoso nos galopes, nostálgico nas serestas, do balacobaco nos sambas, histórico no corta-jaca, no xote e no tango brasileiro, chorão entre  chorões, chorinho entre  “chorinheiros”, erudito entre os clássicos, Altamiro é Brasil, alma viva de nosso País, intérprete de sua musicalidade, expressão de sua cultura.

            Altamiro. “Flautamiro”! Nos seus oitenta anos, como dizia o saudoso Paulo Roberto nos inesquecíveis programas da antiga (e renascente) Rádio Nacional: “VOCÊ É.... GENTE QUE BRILHA”.

11-01-2005 

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