Amanheci Torto Por Dentro

A televisão, os jornais ,o rádio já estão repletos de eufórica propaganda natalina, pesquisas, previsões dos graúdos do comércio, cálculos economicistas etc. O mundo atual é um grande mercado. E hoje ainda é 25 de novembro. Vamos ver o aluvião de “compre, compre, compre” que ainda vem por aí em dezembro. O Natal mercadológico é consumo em vez de Cristo, por isso provoca no cronista que hoje acordou amargo uma funda sensação de sofrimento em contraste com seu amor deslumbrado e deslumbrante pela vida. Amargo, sim: estatísticas recentes dão cerca de 22 milhões de alcoólatras no Brasil. De onde veio o dinheiro daquele dossiê? As tragédias do povo Iraquiano e da faixa de Gaza. O desmatamento criminoso e brutal da Amazônia. Judiciário e Legislativo a pleitearem salários astronômicos! Há dias em que tudo isso desaba sobre mim. Ai a crônica sai com gosto de remédio que dissolve na boca antes de conseguirmos engolir... Por isso, ainda longe da data, reescrevo em forma de crônica um velho poema ampliado. Se não gostar, largue a leitura pela metade. Hoje eu talvez não a mereça. Caso contrário, prepare-se:

Natal do preso com Aids. Natal do homem derrotado pelo álcool, do artista no ostracismo e do filho cheio de complexos de inferioridade por excesso de zelo e cobrança dos pais. Natal da filha da empregada em casa de rico na noite da festa. Natal do assassino. Natal do vestido azul de criança morta. Natal dos loucos a perscrutar o vazio nas noites de lua. Natal no teatro vazio, fechado e escuro. Natal ilusório de quem tem dezesseis anos. Natal dos sonhos de menina orfã, interna em colégio de freiras. Natal da velhinha encasacada a fazer tricô. Natal da mãe que perdeu a filha. Natal do poeta feio e pobre. Natal solitário do homem ridículo. Natal da ânsia de criança muda querendo agradecer. Natal do homem seco de afeto, sem amigos e calejado pela vida. Mas rico.

Natal do inseguro e do que se julga o último. Natal do vigia noturno de edifício a ouvir os ecos do calor da casa alheia. Natal dos muito tristes. Natal nos bares; Natal de freira em crise de fé. Natal do sinaleiro da estrada de ferro. Natal do futuro suicida. Natal no posto de gasolina, frentista a atender motoristas de carrões arrogantes. Natal do cozinheiro de boteco mal iluminado e pé sujo. Natal de quem não conheceu o pai.

Natal dos humilhados, dos pegajosos. Natal do preso recém estuprado. Natal no necrotério. Natal do violinista que o tempo apagará e do sanfoneiro cego do interior do Estado do Rio. Natal do débil mental sonhando cavalos dourados. Natal do usuário suarento na pensão da Lapa em noite de calor. Natal do guarda do matadouro. Natal da flor murcha no retrato do irmão morto. Natal do homem e da mulher que perderam o seu amor.

Quando chegar perto do Natal vou lutar para fazer uma crônica bem bonita. Prometo.

A televisão, os jornais ,o rádio já estão repletos de eufórica propaganda natalícia, pesquisas, previsões dos graúdos do comércio etc.  E hoje ainda é o dia 2 de dezembro.Esse Natal que hoje é muito mais consumo do que Cristo, provoca no cronista que hoje acordou amargo (saudades do meu pai que nasceu num dois de dezembro), uma funda sensação de sofrimento, por contraste com pedaços da realidade e dos agradecimentos por minha vida. E para não atrapalhar o Natal de vocês, ainda longe da data, reescrevo em forma de crônica um velho poema ampliado. Se não gostar, largue na metade. Hoje eu talvez não mereça a sua leitura. Prepare-se:

Natal do preso com Aids. Natal do homem derrotado pelo álcool, do artista no ostracismo e do filho cheio de complexos de inferioridade por excesso de zelo e cobrança dos pais. Natal da filha da empregada em casa de rico na noite da festa. Natal do assassino. Natal do vestido azul de criança morta. Natal dos loucos a perscrutar o vazio nas noites de lua. Natal no teatro vazio, fechado e escuro. Natal ilusório de quem tem quatro anos de idade. Natal dos sonhos de menina órfã, interna em colégio de freiras. Natal da velhinha encasacada a fazer tricô. Natal da mãe que perdeu a filha. Natal do poeta feio e pobre. Natal solitário do homem ridículo. Natal da ânsia de criança muda querendo agradecer. Natal do homem seco de afeto, sem amigos e calejado pela vida. Mas rico.

Natal do inseguro e do que se julga o último. Natal do vigia noturno de edifício a ouvir os ecos do calor da casa alheia. Natal dos muito tristes. Natal nos bares; Natal de freira em crise de fé. Natal do sinaleiro da estrada de ferro. Natal do futuro suicida. Natal no posto de gasolina, frentista a atender motoristas de carrões arrogantes. Natal do cozinheiro de boteco mal iluminado e pé sujo. Natal de quem não conheceu o pai.

Natal dos humilhados, dos pegajosos. Natal do preso recém estuprado. Natal no necrotério. Natal do violinista que o tempo apagará e do sanfoneiro cego do interior do Estado do Rio. Natal do débil mental sonhando cavalos dourados. Natal do usuário suarento na pensão da Lapa em noite de calor. Natal do guarda do matadouro. Natal da flor murcha no retrato do irmão morto. Natal do homem e da mulher que perderam o seu amor.

Quando chegar perto do Natal vou lutar para escrever uma crônica bem bonita. Prometo.24-24-11-2006

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