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Amor Platônico
Que estranhos mecanismos serão estes,
capazes de mobilizar os cantinhos mais escondidos e impenetráveis de
nossa alma, fazendo-nos alimentar um amor sabido impossível?
O amor platônico só fica platônico quando impossível. Mas é tanto maior
quanto mais impossível. Pode já ter sido vivido. Pode nunca ter sido
vivido.
Pode vir a ser vivido um dia. Pode não ser vivido jamais. Mas só fica
platônico no momento em que é impossível. Ou difícil. Ocasião em que
parece crescer.
Parece que a realização do sentimento (torná-lo real, palpável, etc.) é
o impulso mais dinâmico de quem tem um amor na vida. Poucos sabem viver
o seu amor a despeito da realidade externa. Tal impulso é o que faz esse
amor sobreviver, às vezes por toda uma existência.
Por
fora sem possibilidades. Em carne viva lá dentro. Por dentro com
possibilidades. Quanto tempo durará?
O amor é um sentimento. E como todo sentimento – positivo ou negativo,
agradável ou penoso – precisa de alimentação, de estímulo para continuar
intenso, vivo, existente. Se não, morre. Realizar-se ou não, ambos são
estímulos do amor. Daí tanto sofrimento. O que explica, então, ele se
manter vivo apesar da não-realização, da ausência de respostas vindas do
ser amado?
O que faz com que ele viva, atue e inunde a gente?
Nós
mesmos. Somos vítimas e heróis do nosso amor. Por isso merecemos
sofrê-lo tanto quanto senti-lo, felizes. Por isso merecemos vivê-lo, por
outro lado. Nós o mantemos vivo. Nós o alimentamos. Nós,
inconscientemente, o tornamos tão inundante quanto precioso. Vital como
o próprio sangue.
Presente.
O
amor é inesgotável e sem solução porque nós somos inesgotáveis e sem
solução.
O
ser humano é capaz de amar anos e anos a fio sem nem sequer ver,
encontrar ou falar com a pessoa amada. E, o que é pior, mantém o amor a
qualquer preço. Masoquismo ou neurose? Necessidade de um estímulo de
vida ou esperança de um dia realizar? Mais amor pelo sentimento do que
pelo objeto amado ou simples defesa?
Só
após a sua cota de doação e só após todos os embates resultantes do lado
negativo existente em qualquer relação, o amor proporciona a maravilhosa
sensação de plenitude e não de sofrimento como muitos pensam.
Mas supor o amor apenas como um sentimento inebriante é acreditar muito
pouco na própria capacidade de amar. Amor não é sempre feliz, amor que é
amor começa a partir do que não encaixa. Até encaixar... felizmente.
Quem vê o amor só como alegria não acredita nele
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