Arte E Depressão

         O soneto que compactei abaixo é de uma das mais talentosas e famosas poetisas portuguesas, Florbela Espanca que se matou aos 35 anos, segundo alguns biógrafos, afundada em luto de alma pela morte de um irmão, por nome, Apeles. Chama-se “Tédio” e me foi enviado via Internet por José Pequeno. Vamos lê-lo com atenção:

Passo pálida e triste .Oiço dizer/”Que branca que ela é! Parece morta!”/ E eu que vou sonhando, vaga, absorta,/Não tenho um gesto, ou um olhar sequer.../Que diga o mundo e a gente o que quiser!/-O que é que isso me faz?... o que me importa?.../O frio que trago dentro gela e corta/Tudo que é sonho e graça na mulher!/O que é que isso me importa?!Essa tristeza/É menos dor intensa que frieza,/É um tédio profundo de viver!/ E é tudo sempre o mesmo,eternamente.../O mesmo lago plácido, dormente dias,/E os dias,sempre os mesmos,a correr...

Como poesia é dolorosa e bela obra que me traz a recordação de um tema deveras discutido em literatura: a relação da depressão (é evidente ser um poema altamente depressivo, antecipatório de um suicídio) com a beleza artística ou com o espicaçar a sensibilidade. Quantas grandes obras nasceram da depressão e assim, de certo modo, livraram seus portadores das mordidas desse gigante da alma , a citada depressão. Mas serão apenas a tristeza profunda, a “fossa”, a malinconia, a neurastenia, as grandes causadoras da obra de arte? Sinceramente, penso que não. O estar bem e a felicidade  (estesia não é infelicidade) e outras fontes de energia vital, podem também criar grande obras. A grande arte não é filha apenas da tristeza sentida de modo estético. Duvido que o Davi de Michelangelo foi esculpido durante uma depressão. A  arte não é apenas filha da depressão e, sim, filha da sensibilidade, embora eventualmente a depressão possa, eu disse possa, afiar por vezes a sensibilidade. E mais da metade dos artistas confunde sensibilidade com depressão. Por isso são seres especiais, merecedores de carinho e tratamento.

O segredo, a meu ver,  é alqueivar-se, como se terra fôssemos. Falo mais claro: Alqueivar é uma velha expressão portuguesa que segundo o dicionário, é  “Lavrar a terra e deixá-la de pousio (repouso), para que adquira força produtiva”. Sim. Cabe ao artista lavrar a sua terra interior e isso dói mas com energia de vida e não de morte. Usar o repouso e o ócio criativo, também como instrumentos de criatividade e vibrar de energia, luz, força e felicidade  pelo prazer de criar. Em outras palavras: alegria de viver também faz arte. E não apenas a depressão, o sofrimento e o egocentrismo.

29-09-2004


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