As Recentes Eleições No Congresso

Leitora me pede uma visão interna da Câmara e do Senado, já que está impressionada com a repercussão das eleições para as Mesas Diretoras de ambas as Casas do Congresso. “por que tanto barulho por uma simples eleição interna?” pergunta.

 Câmara é uma lagoa de jacarés. Eles estão ali, ora se movem, juntam-se, deambulam, mordem, ponderam. O plenário é mal concebido do ponto de vista da arquitetura. Deveria ser em planos. Afinal, são 513 pessoas, um barulho infernal de feira ou pregão da bolsa. Mas pulsa energética e eroticamente. A Câmara é hormonal, pulsa paixão, conflagrações internas, ânsias. Irrita-me pela dispersão, mas admiro-a em sua pujança. Ali espocam em estado quase puro os conflitos, as diferenças e dessimetrias dos modos de ver o País. Oxalá tome juízo neste mandato recém começado. Agora é varrer a vergonheira e os sem vergonhas, porque a Câmara dos Deputados é a casa do povo e um órgão decisivo na democracia.
A par dessa visão generosa e poética, há, também, muita indisciplina de comportamento. Se soubessem os Deputados como a imagem de todos em pé, aos montes, chega mal à casa dos eleitores via tevê, simulando desordem e bagunça, cuidariam da "imagem" geral do plenário, principalmente agora que a televisão Câmara transmite ao vivo as seções.

O Senado é mais maduro e tem que ser. É a casa da revisão dos projetos que chegam da Câmara e tem também (a meu ver erradamente) o poder de iniciativa de projetos. Este deveria ser apenas do poder Executivo e da Câmara dos deputados. Foi criado para processar o equilíbrio federativo. Por isso são três Senadores por Estado. Eles representam o equilíbrio da federação mas alguns acham que representam apenas o seu estado. Mais que regionais os Senadores devem ser políticos nacionais. Em compensação, pode faltar-lhe paixão existente na câmara. E política é uma endiabrada relação entre paixão,razão, idealismo e interesses. Sobrará lucidez onde faltam secreções internas? Lembro--me do poeta Dante Milano a dizer: "De tão lúcido, sinto-me irreal"...O realismo, porém, predomina numa casa onde há muitos ex-governadores e ex-ministros de Estado. Mais da metade da Casa é composta por gente experiente e vivida na política. Isso é bom.. São 81 pessoas. Altíssimo índice seletivo de algo que mescla (de modo maravilhoso e diabólico, como cabe à política) valor, peso político, experiência, inteligência, astúcia e força eleitoral. Afinal, uma Casa com 81 pessoas selecionadas entre 180 milhões de pessoas é, necessariamente, de alta seletividade. O Senado existe para ser uma casa do saber e da experiência, sem ser uma entidade com a pulsação desordenada mas pujante e fundamental da Câmara dos Deputados..

         A palavra senado deriva de “senectus” que não quer dizer propriamente velho, mas vivido, experiente.. A palavra gerou ainda "senhor" e "senior", variantes que de certa forma qualificam e jovializam o Senado. Posso, no entanto, dizer que é uma Casa instigante de reflexão, maturidade e conhecimento do Brasil, onde com menos paixão do que na Câmara, pode se exercer trabalho de profundidade e agradável convivência pois há pessoas muito interessantes, das raposas às águias, passando por uns poucos poetas que a política, não sei bem por que, parece apreciar, desde que em minoria e sem poder.... A política precisa dos raros poetas militantes partidários e principalmente da lucidez deles, ainda que para não a seguir...

O Senado é a casa do pragmatismo inerente a homens vividos e, mesmo com ideais, pessoas sem ilusões.

07-02-2007

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