Bezerra da Silva

         E lá se foi o nosso Bezerra da Silva!

         O malandro verdadeiro é um sujeito  inteligente  que não bafejado pela sorte desde o berço, aprendeu a sobreviver por intermédio da sagacidade e da lucidez, não da desonestidade como se supõe, sabendo, sim, fazer a transgressão que não machuca, apreciando o bom e o melhor, sabendo obtê-lo na base da simpatia e da conquista, jamais da grossura ou violência. Os habituais processos de esmagamento social não conseguiram dobrar o malandro e mesmo sem sair da sua condição social, consegue a nobreza e a dignidade de  sair-se sempre bem das coisas, de retirar uma filosofia de tudo e levar a vida na alegria impossível para todos os que vivem aflitos no topo da pirâmide social. O malandro é o maior dos solitários: um tipo inesquecível e original numa sociedade de robôs e pessoas tornadas iguais pelo sistema.

         Acontece que os tempos passaram e a imagem acima, a do malandro romântico foi sendo substituída  por um outro tipo de pessoa que ao mesmo tempo reconhecia as injustiças do sistema, a esperteza dos ricos, a presença da droga nos morros ou nas favelas horizontais da Baixada, pela figura do Alcagüete, do "vacilão" e por uma série de situações onde o verdadeiro pobre e sobrevivente dessa selva tinha que ser mais um revoltado e       cético (como por exemplo, também o Dicró) do que um esperto no sentido da antiga e rósea malandragem. Essa foi a grande originalidade do José Bezerra da Silva que já possuía quilômetros de razões para ser um revoltado e descrente desde a remota infância em Pernambuco quando o pai abandonou a mãe que depois se juntou com outro (era uma mulher brava e de fibra que criou os filhos na decência e na moral). Só que Bezerra detestava o padrasto, enfim muita luta, muita dureza, muito sofrimento, coisa que quem desejar conhecer mais a fundo, por favor, procure e ache o ótimo livro de Letícia Vianna, edição do Jorge Zahar Editor, com o título “Bezerra da Silva, Produto do Morro" e o sub título “Trajetória e obra de um sambista que não é santo”.

Bezerra foi uma sociologia urbana em carne viva. Através das obras que escolhia se descortina com crueza todo um universo que contesta as elites e o que estas tratam de esconder. E destaque para os autores das músicas e letras que cantava, só pelos nomes, identificados com o povão e gente de alto talento: Trambique; Ney Silva; Paulinho Corrêa; Beto Pernada; Simões; Baiano 7; Luiz da Varginha; Walmir dos Pagodes; Cabana; Adelzonilton; Carlo Doido; Tião Murado e tantos outros quase anônimos heróis como herói de sobrevivência e anti-hipocrisia foi o Bezerra da Silva.    

Sua obra ainda está para ser mais estudada e compreendida. A mídia o abafou. A verdade dói.

18-01-2005


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