Bigamia

             Para todos era a charmosa Dra. Alvina, teoricamente bem casada no segundo matrimônio, professora da Escola de Medicina, psiquiatra de sólida formação. Desejada por muitos, sabia fazer a esgrima da face na hora dos beijinhos de olá. Há um ano não se encontrava com Verinha, nessa vida agitada da cidade. Daqui para adiante Verinha é V; Dra. Alvina é A.

          V- Puxa quanto tempo, minha irmãzinha. Tudo bem?

A- Casei, sabia?

V- Como casou? Abandonou o Maurício, aquele santo?

A- De maneira alguma. Maurício é meu marido compreendido e querido, cuido dele como ninguém, sou a sua melhor amiga. Jamais o trairia. É um excepcional companheiro. Casei-me na Internet.

V- Tá maluca? Virou uma daquelas que vai se mandar para Baltimore por causa de um namoro da Internet, chega lá e o cara é cafetão?

A- Nada disso! Estou equilibrada como nunca. Vou continuar no Rio, o que você chama de “cara” mora em Barbacena, Minas Gerais. Nós nos casamos só na Internet. Você é a única pessoa que sabe e da parte dele, ninguém. Por um erro de digitação quando ele teve pneumonia conhecemo-nos virtualmente.

 V- Mas casar? Pode ser seu amigo, pode ser a tal afinidade distante. Pode ser enamoramento sem perda de fidelidade nem de lealdade. Tudo isso eu compreendo. Mas casar?...

A- Verinha: a Internet tem poderes de interatividade ainda não descobertos. É impressionante como algo que é muito mais que uma irmandade de espírito pode se dar de modo paralelo e nada conflitivo com o que existe fora do espaço virtual. Isso ainda vai ser muito estudado. Para encurtar a história; ainda estou em vibração: anteontem nos casamos, só os dois, pela Internet. Agora só você sabe.

V- Me desculpe, Alvina, mas isso não vai acabar bem. Essas coisas crescem, depois dão ciúmes na distância.

A- Ciúmes? Nem pensar! Sou ciumenta é com o Maurício. Ainda não me acostumei e até hoje reclamo do modo dele de olhar para as mulheres. O de lá pode ter amigos, amantes, amadas, compromissos, que não me interessa. Aliás, ele é meio enrolado nesses assuntos. Não tenho o menor ciúme, por mais que goste dele. Nossa relação é empatia pura, espiritual, interior, como jamais vivi e fazia falta em minha vida. Agora, uma coisa eu tenho, sim: é um zelo brutal apenas com aquilo que é só nosso, que só nos dois sabemos, sentimos e trocamos. Resultado: perto da velhice, estou feliz como nunca. E não pretendo vê-lo, nem encontrá-lo pessoalmente. Estragaria tudo. Enfim, realizei um dos mais antigos desejos da mente humana sobre a qual trabalho há 35 anos por isso, conheço bem: ser bígama sem fazer mal a ninguém. Só bem.

 30-03-2005

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