Cabelo Lavado E Cheiroso

             A mulher conversava com o seu homem. Ele a admirava com o olhar
translúcido do amor total. Ela preparava a mamadeira do filho.  Um pormenor inocente e natural, porém, revelava um universo sensual: ela estava com os cabelos molhados recém-saídos do banho. O ar atarefado da mulher jovem com cheiro de limpo e sem nada de luxo e o perfil desenhado pela seriedade da função corriqueira e generosa de preparar a mamadeira despertaram nele a mistura de atração física com ternura. Nada é superior a esta mistura na relação de amor.

 Em confiança de amigo íntimo, ele me contou a cena: nem houve tempo de preparar e dar a mamadeira, tal o agarramento feito de genuína atração e o esplendor da entrega amorosa integral que se seguiu, com o bebê a chorar e por primeira vez abandonado na hora da fome, no quarto ao lado. Isso que meu amigo é psicanalista Kleiniano, desses que sabem o mal que faz deixar a criança a sós e com fome, na fase pré-consciente.

E cá estou, velho cronista a separar realidade de ficção e a embarcar num devaneio, que passo a vocês: confesso-lhes, e sem encabular, o meu fraco total por cabelo recém lavado, suave cabeça de mulher cheirando a caixa de sabonete. Tenho por esse odor uma entrega derrotada e confessa, na razão inversa do mal-estar que sinto por perfumes fortes, particularmente os doces.      
        Aquela jovem mulher de cabelos úmidos e nuca cheirosa me faz lembrar de quantos instantes não percebidos de beleza, atração e ternura está composto um cotidiano que muitos brutamontes não sabem apreciar. O corpo de mulher jovem, a exalar, ao de leve, o cheiro sedutor de banho de agorinha, dignificado pela tarefa simples, enérgica e essencial de preparar a comida para o filho, é um lindo quadro. Na minha ficção, vejo apenas um rosto suave e pele lisa. Boca de criança, uma pálpebra lindamente e mi levemente mais baixa, o nariz delicado. Apenas uma jovem mulher, cheirando a banho tomado e com a invencível sedução de um cabelo molhado e sacudido, pronto tanto para a intimidade transcendente do amor verdadeiro como para a tarefa maravilhosa de alimentar a sua cria.

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