|

Cabelos
Brancos
Sempre
achei cabelo branco bonito. Recordo algumas pessoas que deixaram seus
cabelos brancos ocuparem seu verdadeiro lugar e biografia: a poetisa Adélia
Prado, uma amiga querida e sumida (ela se esconde), a escritora Rachel
Jardim, algumas figuras femininas européias. E homens também. Ainda me
recordo dos belos cabelos brancos desse grande jornalista – e depois
Senador, que foi o Pompeu de Souza, pessoa querida, ou,desde logo, o
Professor Antônio Gomes Pena, que foi meu mestre nos anos 50 e, no século
vinte e um, continua bonito com seus cabelos brancos. Ou o Presidente da
Academia Brasileira de Letras, o ótimo poeta Ivan Junqueira, que, igual
ao pai dele, cult
iva um belo cabelo branco.
Quando
defendo minha teoria sobre a beleza dos cabelos brancos, a maioria das
mulheres discorda e cai em cima de minha acanhada opinião. “Não!“,
dizem iradas, “temos o dever de manter um rosto jovem. O cabelo branco
envelhece muito!”. Calo-me.
Aí
vejo a atriz Glória Menezes, que já teve a coragem há alguns anos de
aparecer careca no vídeo (cabelo totalmente raspado), dar um “baile”
de delicadeza, beleza ,doçura e interpretação, juntamente (no
“baile” de interpretação) com Raul Cortez, em Senhora do Destino.
Como está bonita a Glória com aquele cabelo branco! Chega a comover. Um
rosto não envelhecido, ornado com a cabeleira branca bem penteada, é das
imagens mais belas possíveis em uma mulher. Qualquer cor de tintura que
os figurinistas porventura houvessem escolhido para a personagem da
“baronesa”, jamais a deixaria tão bela e convincente.
Cabelo
branco não é enfeite: é título. Comprova uma existência que se
realiza e, segura de si, não mais precisa de artifícios, tudo isso numa
sociedade em que o artifício passou a ser moda, a ser marketing, na qual
moças de 20 anos já estão a mexer no busto, algumas, coitadas, de modo
horrível, a colocar mamões endurecidos, supostamente sensuais.
Cabelo
branco é a aceitação sadia do tempo, da vida, da idade, esse privilégio
de quem, por muito viver, sabe compreender, perdoar, abrir mão de
qualquer forma de inveja dos mais jovens, ser quem é, com humildade e
segurança.
Glória
Menezes: nunca mais tire esse cabelo branco, e, com licença do Tarcisio
Meira, seja por sua atuação, seja pelo cabelo branco, aceite um beijo
carinhoso deste seu admirador.
30-11-2004
|