Capricornianas 

Todo mês de janeiro, lembro-me a miúdo de três colegas capricornianos que se foram, pessoas queridíssimas: Rubem Braga, Stella Marinho e Nara Leão. Hoje vou alimentar a saudade desta. Que era minha comadre.

Nara Leão, embora a musa da bossa nova e apesar de haver participado de modo amadorístico nas origens do movimento, só apareceu como cantora profissional em 1963 e foi notória após 64, quando a bossa nova original (que começara em 1958) já não era mais composta, estando a música brasileira na era dos festivais, da música de protesto e na ante-sala do novo movimento que a sacudiria, o tropicalismo. E, depois deste, um longo período de decadência, com reações saudáveis mas minoritárias na década de noventa de 2004

Nara permanece sendo tocada e admirada como antes: mas apenas nas emissoras que transmitem a boa música popular brasileira e não esse aluvião de bobagens com as quais a televisão e muitas rádios timbram em anestesiar o bom gosto da juventude. Nada de sucessos estrondosos (o que só fez com A Banda), mas presença discreta e nítida ao mesmo tempo. Sem alardes, fez-se inconfundível, como estilo. Jamais imitou. Ninguém a imita. O modo tímido, como quem pede licença para se expor, denota as marcas de um temperamento recolhido e sensível, a envolver as suas interpretações naquele seu charme, algo de menina, muito de mulher. Hoje ela é lendária. E merece. Os jovens mais sensíveis se interessam por seu canto. A melodia e a letra representam a elaboração espiritual ou intelectual de sentimentos básicos do ser; amor, saudade, ódio, patriotismo, ânimo guerreiro, dor de perda, protesto, ira ou temor e reverência a Deus. O canto traduz, pois,  realidades conscientes e inconscientes, pois é feito de gritos, espasmos, sons tirados de profundezas. É o grito domado, o berro tornado melodia, o choro feito som harmônico (ou não); ele está sempre a traduzir emoções primais do ser humano. Ou então é linguagem sutil, segredada, refinada, subjetiva: o  canto de Nara.

O que é o canto pós-moderno do rock senão a expressão direta de todas essas pulsões e violências? Por isso ele não necessita de harmonias, suavidades e belezas no sentido anterior da concepção musical. Em vez de harmonias...hemorróidas.....

Nara expressou os momentos finais do canto harmônico, quando este já se havia despido dos altos alardes vocais e interpretativos, preferindo o caminho da confidência e da comunicação direta. Cantou um tempo de amor e harmonia, logo depois invadido, em seu país, o nosso, tanto por uma ditadura militar, como pela expansão da miséria, da dor e da injustiça social. Seu canto divide-se, então, na expressão da nostalgia pelos anos bons e amorosos que haviam sido abafados e o canto necessariamente seco do protesto. Mesmo, porém, quando a revolta o dominava, infiltrações nostálgicas faziam-no voltar aos anos nos quais bastava ser sensível, amoroso e algo triste, além de terno e recatado. Saudade.

12-01-2005

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