|
|
|
Hoje, 22 de setembro, esse
grande cantor e seresteiro chamado Carlos José faz setenta anos e quero
ser dos primeiros a enviar-lhe o abraço amigo e avisar a jornalistas e
radialistas eventualmente desmemoriados. Carlos José é um exemplo de
amor e fidelidade a um gênero de música popular que ajudou a não
desaparecer na grosseria do aluvião rockiano e globalizante das últimas
décadas do século vinte. Se há artista fiel ao que considera belo (e é),
custe o que custar, é ele.
Digo custe o que custar pois ele chegou a ficar quase vinte anos
sem gravar. É mole? Isso para um cantor com a sua afinação, bom violão,
graves maravilhosos, repertório irretorquível, doçura na voz e senso
desenvolvido de interpretação. Ficou sem gravar, mas o “Brasil
brasileiro, meu mulato inzoneiro”, cantado por Ary Barroso, este Brasil
jamais esqueceu Carlos José, tal o número de convites para shows que fez
a vida inteira, por todo o País. Ele faz parte de um conjunto de ótimos
cantores esquecidos pela mídia, como Silvio César e Luis Cláudio, entre
outros.
Fiz as contas: conheço-o há cinqüenta anos, colegas que fomos no
velho Colégio Andrews e até hoje me recordo de reuniões musicais na
casa dele, enorme, em Santa Tereza, onde seu pai
adorava música, todos tocavam e o irmão mais moço, o Luís Cláudio
Ramos (não é o cantor), arranhava uma guitarra da qual se tornou mestre
além de ser um arranjador dos preferidos hoje na MPB. Eram reuniões
deslumbrantes para mim, adolescente e já apaixonado por boa música. E
era época da excursões e piqueniques da moçada, nos quais Carlos José,
a quem, apelidamos “Seresta”, levava o violão e brilhava diante das
meninas. Depois, ficou em dúvida entre a carreira de advogado e a
profissionalizar-se como cantor, convites de gravação e programas de TV
vinham de todos os lados. Formou-se em Direito. Mas logo optou pela a
carreira de cantor, e a seguiu com brilho, seriedade, qualidade e a citada
fidelidade às raízes brasileiras de nossa linda música popular. E
curiosamente, anos depois, mesmo sem se afastar da carreira de cantor,
Carlos José, exerceu a advocacia na defesa do Direito Autoral, numa das
sociedades arrecadadoras, se não me engano a Socimpro.
Carlos José, representa, pois, a história de um amor pela música
de seu País, exemplo de fidelidade, de bom gosto, de dignidade pessoal e
artística, jamais sucateou sua obra ou aderiu a gêneros em moda só para
vender discos. Ele construiu, portanto, uma obra discográfica imensa, que
merece ser revivida na era do CD embora haja umas poucas gravações dele
nessa modalidade. Mas a recuperação de sua obra em LP está clamando por
vida e vinda à recuperação em CD. Um grande sujeito, querido amigo a
quem não vejo há anos e não canso de admirar. Parabéns. |