Carta A Jayme Monjardim

         Uma das vantagens da idade é já haver visto muita coisa. Já vi muito artista com a sua qualidade, apanhar da imprensa e dos críticos implacáveis e o tempo os consagrar. No cinema, aconteceu com a chanchada e com os começos do Cinema Novo. Você e meus leitores por mais que imaginem não avaliam o que neles se batia. Na política, com o Juscelino Kubitschek. Hoje ninguém tem idéia da virulência com a qual era atacado.

         Olga é um belo filme. Deixe os cocorocas chiarem. E é um filme de esquerda, não um filme comunista. E se fosse não teria a menor importância, porque arte não se censura. Mas grande parte de gente que se diz de esquerda, não o é. É da esquerda e, não, de esquerda. Faz parte de uma grife chamada esquerda, repleta de gente radical e massificadas por alguns stalinistas recalcitrantes e mal informados sobre a esquerda moderna. Esta, tem duas qualidades: é generosa e a favor do progresso, por isso se diz progressista. E progresso é também evolução cultural, e humana, com liberdade de pensamento. Ademais você é da Globo. Isso, essa gente não perdoa por princípio. E vem da televisão, outro “pecado mortal” para qualquer pseudo-intelectual.

         Você realizou um filme de linha, sem querer revolucionar nada em matéria de cinema mas com uma forma impecável, um conteúdo de elevado sentido ético-moral, que ajudou a provocar a sadia discussão que se trava hoje no Brasil sobre os complexos e contraditórios anos Vargas. Outros cocorocas dizem que usou linguagem de TV em cinema. Ignorância das boas! Há pelo menos vinte anos que cinema e televisão fundem linguagens. Quem entenda um mínimo de ambos, saberá do que falo. Reclamaram do excesso de closes. Pois você fez muito bem. Contando com uma atriz de força e beleza interior arrebatadoras como a Camila Morgado (que você já havia revelado em A Casa das Sete Mulheres e agora revelou para o cinema), fez muito bem em usar aquele rosto notável como dinâmica emocional e vida interior em planos enormes o que economizou diálogos. aliás, deveras qualificados, idem o ritmo da montagem acelerando a narrativa difícil.

         Fez, portanto um filme no qual pode-se fazer um ou outro reparo (você mesmo já deve haver feito vários) mas de alta qualidade como cinema, como fidelidade histórica e se o fez em linguagem fortemente dramático, fê-lo muito bem porque a realidade ali retratada é ainda muito mais brutal e desumana, em tempos de barbárie, justamente hoje em dia quando o terrorismo de um lado e Bush do outro diariamente ameaçam o mundo. Parabéns.

16-09-2004

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