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Carta A
Ingrid, Póstuma
Que me
desculpem os cirurgiões plásticos, mas ruga é marca bonita. O que
envelhece um rosto e lhe tira beleza não é ruga. São as mensagens da
pele perdendo vida, o cansaço nos olhos, são os telegramas dos pequenos
músculos da face que acabam por se acomodar em posição definidora dos
embates e teimosias interiores, são as dores mais secretas.
Rosto sem rugas é vida sem biografia. A ruga é marca da vida, a presença
da própria história, um berro existencial. É o que não se viveu, mas
sentiu, vincando.
Vi você, Ingrid Bergman, outro dia, num filme de TV no qual, mulher
madura, casada com um intelectual que vai para o campo escrever seu
livro de Direito Constitucional, você encontra e conhece um sujeito da
região (Anthony Quinn), telúrico, bom, simples. Aí, já viu: mãe, avó,
bela ainda no porte de nobrezas ancestrais, ramerrão, ânsia de vida. Não
tem outra: vem aquela trombada existencial! Mas, no fim, acaba não dando
pé e você termina é cuidando do neto para a filha poder fazer o mestrado
em Oxford.
Há rostos muito, para pessoas pouco. Há rostos pouco, para pessoas
muito. Há pessoas muito em rostos medianos. Há rostos deslumbrantes para
pessoas aquém deles. Rostos muito, para pessoas muito, são raríssimos.
Há, porém, rostos tudo. O seu, Ingrid. Estranha concentração da variada
tessitura dos mistérios humanos, seu rosto é um rosto tudo. Pecado,
inclusive. Incubado. Raro. Para raros. Raras vezes. Mas fundo e
dolorido.
Rosto de nobrezas e virgindades, de alfombras, instantes impossíveis,
encabulamentos adolescentes. Rosto de multidões hipnotizadas e salvas da
desgraça. Rosto de fé no ser humano. Em suas linhas brilham ilusões e
todas as luzes de Hollywood. Em seu rosto estão os deuses nórdicos e as
possibilidades de muitos frios, caso alguém o faça tornar-se
indiferente. E estão todos os aquecimentos adequados a invernos e
solidões. Estão contos de fada e estão pecados de carne, secretos. Está
a maternidade, a médica, a comerciária, a mulher do herói, está a terra
lavada. Está o lugar comum, o cartão postal, a cafonice. E estão
orgulhos, elites e monarquias insuspeitadas.
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