Debaixo da Sombrinha

Conseguiu sair do banco dez minutos antes do fim do expediente e se mandou apertado em um ônibus até a porta do cinema, onde Milana já esperava por ele, linda, com uma pequena sombrinha. O céu carioca de verão, vociferando roncos e explosões. Esperava chegar antes da sessão das seis naquele musical da Metro, colorido, uma novidade nos anos quarenta.  E já quase sentia o cheirinho especial, no ar condicionado do Metro Copacabana de então, o único do Rio.

 Não havia muitos túneis, somente um túnel novo com mão e contramão. O percurso, repleto de engarrafamentos. Ele apertado e em pé no ônibus a ver pela janela a tarde escurecer de modo assustador. Além de haver conseguido tirar Milana de casa com a desculpa de ir estudar em casa de amiga, logo ela que não era disso, culpava-se de chegar atrasado, de ser relativamente pobre, bancário. Ela era inteligente e a moça mais bonita e fugidia da Rua Visconde de Pirajá. Mais: não apresentava especial interesse por musicais. Já naquele tempo preferia os filmes com julgamentos, adorava o Gregory Peck, o Marlon Brando e o William Holden, sabia ademais o nome de diretores, de estilos  e escolas cinematográficas. Lera grande parte dos livros depois transformados em filmes, nada disso ele e a rapaziada que o cercava sabiam. Inseguro, atrasado, sem guarda-chuva, chega à altura do cinema ainda lá na Barata Ribeiro com vinte minutos de atraso, salta e sai correndo feito louco debaixo do aguaceiro, aflito por ainda encontrá-la e desesperado pela hipótese contrária.

Atravessou veloz a Raimundo Correia, escorregou, caiu, sujou-se e esfolou o braço, mas nada o impediria de ainda tentar a sessão das seis, na primeira vez em que conseguira ir ao cinema ou ficar a sós com Milana, ainda que no cinema. Vê, do outro lado da rua, esbaforido, a imagem da qual jamais se esqueceria. A porta do cinema ficara vazia. Lotado, ninguém mais entrava após a sessão começada. Não cabia. Milana, esguia, os belos cabelos ondulados e compridos soltos sobre o ombro, a roupa discreta (pudor que sempre teve), e que escondia e por isso mesmo revelava seu belo corpo, sozinha, entre a marquise e a rua, debaixo da pequena sombrinha a esperá-lo.

Não acreditou. Havia pensado em tudo até chegar lá: que ela desistira de esperar; que nem veio ao encontro; que a mãe não a deixara sair sozinha, que a tormenta (a essa altura era um temporal daqueles de encher ruas); que a rigor não se interessava por ele, que era mais feio e o único que possuía era um caderno de versos no qual Milana disse haver talento, contrariando o parecer de um colega muito culto que lhe fizera duras críticas, daquelas desanimadoras.

Lá estava, respingada de chuva, assustada por estar só na rua àquela hora, desprotegida, úmida da água trazida pelo vento forte, mas à espera. À espera dele, que não possuía especial auto-estima, antes se considerava um ser corriqueiro, sem nada de especial.

Chega com pedidos de desculpa, o coração galopante, a dizer que o trânsito etc. Empapado de chuva da cabeça aos pés. Milana não devolveu qualquer palavra de reclamação, sentiu-se aliviada com a chegada, embora assustada com a proporção da chuva que já enchia a Avenida Copacabana. Ficaram naquela indecisão do coração aos pulos sem saber o que dizer até que num lance do qual jamais se julgaria capaz não fosse a emoção, segura com vigor a mão de Milana que estava livre da sombrinha. Os dois calados, quase colados, sem saber o que dizer, vivem quinze minutos de só silêncio. Milana repousa a cabeça no ombro dele e sempre em silêncio os dois vêem a chuva aumentar, a água sobe a calçada, os pés encharcados, ela não sabe o que dirá em casa e ambos ignoram como retornar e começam a rir e a rir sem parar. Rir de tudo: do que não foi falado, dele empapado, da descoberta do amor possível, de não saberem o que fazer e de se manterem calados, apenas mão na mão e um riso saboroso, desses que só surgem em momentos especiais,  fazendo alegria do que parece um problemão.

Depois, por motivos vários, o namoro não prosperou, mas ambos até a morte lembravam-se daquele dia. Separados no tempo e no espaço, um nunca soube que o outro jamais esqueceu a cena.

Voltar