Encontro nada banal

Quando não mais lhe restavam esperanças de repor o que lhe fôra único e original na vida, encontrou-a, por acaso, na rua. Sempre a tivera na condição de um ser de exceção, inaprisionável por regras ou pessoas. Admirou, mesmo perdendo, a capacidade de entrega à vida com algo de inocência, teor de anjo. Era dotada da calma certeza de que viver é bom e tudo dará certo. Jamais se preocupou, ela, em ser protagonista, mesmo feita para oferendas. Pensou intensamente nela, quando leu alguns livros sobre Alma Mahler. E pensou como seria a vida de uma Alma Mahler não ambiciosa, a viver exclusivamente para o belo e buscá-lo com liberdade de menina a procurar flores no campo.

Ele não se perdoava por jamais haver tentado retê-la, mesmo sabendo-o impossível. Igualmente não compreendia o que ela pressentira em seu ser capaz de interessá-la. Era-lhe dádiva de tal monta que se julgava incapaz de merecê-la, a ela e à dádiva. Ao mesmo tempo pressentia-lhe na alma a capacidade de perceber seu caráter e bondade e a (para ele) inexplicável reciprocidade de atração. Pele. Deveria ser por bondade. Ou será que era ela capaz de ver-lhe também o melhor do que se abrigava na sua alma? Tê-la era (teria sido) ter-se em seu melhor.

 O traço aventureiro da vida dele levou-o para caminhos de responsabilidade, deveres e distâncias que nunca lhe permitiram lutar por ela. Tirá-la da cobiça feroz de tigres. Ademais, partira no auge de sua vida e de seu deslumbramento para um inesperado e longo mestrado fora do Brasil. O traço samaritano da vida dela jamais se reteria em esperas do que idealizava ou adivinhava, porém não tinha, além de saber que poderia encontrar em outros ninhos e seguir seu destino de liberdade.

 Treinou-se em não depender dela e sua lembrança. Sabia ser ela meiga e boa demais para não deixar de se entregar aos passos de um mundo onde se saberia útil, amiga, musa, inspiração e até, se quisessem, empresária, sacerdotisa ou babá.

 Depois de encontrá-la muitos (quase 100) anos depois, na rua, quase velho e igualmente emocionado, saiu a cismar, enternecido e triste. Meio tonto, até. Vontade de aprisionar a vida nas vivências do melhor de si tornado distância. Era a presença do melhor de si a latejar renitente juventude, ainda a sentir o anjo dela. Saiu bêbado de juventudes teimosas. Tudo porque, além de vê-la e contemplar-lhe a serena beleza do envelhecer, ela, para sua surpresa, ela, a menina das flores, a inaprisionável sacerdotisa do mutante, eterna sonhadora do inusitado, alguém que o sentiu, mas talvez jamais o amou, ela, logo ela, confessou que quase não o cumprimentara. “Por quê?”, perguntou. “Porque não sabia se você ainda se lembrava de mim.”  

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