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Marlowa e Pavlovsky Nos anos quarenta havia poucas famílias polonesas naquela rua de Copacabana, de modo que se conheciam ainda que ligeiramente. Quando Marlowa nasceu, Pavlovsky, menino de uns cinco anos, foi levado por sua mãe para conhecer a neném. Não era bem ele. Eram as mães de origem judaico-polonesas que se visitavam. Mas a mãe de Marlowa sempre se lembrou daquela visita e a recordou diversas vezes para a filha. Depois que se fez moça, Pavlovsky a olhava de longe admirado de sua beleza e sedução adolescentes. Mas, tímido, jamais se aproximou. Como toda mulher bela, porém, Marlowa o via de longe, e não se sabe, nos mistérios de sua fantasia, se ele ocupou algum em seus desejos. Cedo foi arrebanhada por um jovem médico, de alto talento, pessoa qualificada e séria que a levou para morar em Anápolis. Sumiu da rua. Mas Pavlovsky nem se deu conta, andava metido em refregas políticas que lhe custaram algumas e muitas dores. Acabou numa revista sem grande circulação a trabalhar como revisor, vez por outra corrigindo textos tolos sobre artistas, modistas e pessoas famosas, mal escritos por jovens repórteres formados em faculdades de jornalismo que ele nunca freqüentou. O único que fez na vida foi um modestíssimo livro de poesias sem qualquer repercussão. Marlowa tornou-se professora universitária, teve filhos, foi feliz no casamento. Enviuvou na casa dos cinqüenta e poucos anos, sempre altaneira e muito bela. Evoluiu espiritual e intelectualmente e ganhou impressionante consciência de sua liberdade interior. O que teria sopitado em seu coração? Um jovem triste e meio autista, chamado Virgil, talvez até pela afinidade de nome e origem estrangeira, um dia retira de perdida biblioteca da Prefeitura, o livro fracassado de Pavlovsky e o descobre como poeta. Encanta-se com a obra dele. Começa a publicar considerações sobre a obra de Pavlovsky em sites de poesia, citando-o, e eis que, em Anápolis, Marlowa, que aprendera a tripular o computador e, como professora do idioma, a pesquisar com afinco, re-descobre-o pelo nome, já velho, e descobre, também ela, o e-mail de Pavlovsky. Apresenta-se e relata a história. Pavlovsky se enche de espanto. Como aquela linda mulher, já na casa dos sessenta anos, lembrava-se dele? Como? Por quê? E, para o encanto dela, ele também não a esquecera e se espantava com o que haveria no mistério de interessar-se por ela após uma vida aventurosa, politicamente derrotada com a queda do socialismo. Já se esquecera de tanta gente, por que, não, de Marlowa? Como seria? Como estaria? Hoje trocam mensagens e ela morre de medo de encontrá-lo, embora uma de suas alegrias seja essa correspondência, onde preenche a velhice dele com textos brilhantes, enérgicos e jovens e, em suas orações, diariamente agradece a Deus a existência de Pavlovsky e da Internet. Já ele, pensa para onde vai e onde vive o amor que não se viveu com alguém. É um melancólico. Deve ser da origem polonesa. |